A ciência da longevidade canina tem evoluído rapidamente, impulsionada por uma demanda crescente de tutores e pesquisadores interessados em estender o healthspan de cães de companhia. Além de compartilhar lares e hábitos com os humanos, os cães apresentam doenças espontâneas e trajetórias de vida que os tornam modelos valiosos para entender os determinantes biológicos da longevidade.
Um marco recente é o estudo publicado na Communications Biology, que apresenta um atlas multi-ômico detalhado do envelhecimento em cães, integrando dados de genômica de célula única, perfil metabolômico de soro e uma intervenção experimental com células-tronco mesenquimais.
O objetivo é avançar na identificação de biomarcadores que possam monitorar a idade biológica canina e, futuramente, orientar estratégias para prolongar a longevidade com qualidade.
Achados que podem impactar a longevidade canina
Os pesquisadores analisaram 19 cães de quatro raças, mapeando nove assinaturas de senescência em células T CD8+, incluindo genes mitocondriais que reforçam o elo entre metabolismo energético e envelhecimento do sistema imune. Na metabolômica, foram identificados 51 compostos relacionados à idade, com destaque para UDP-N-acetilglucosamina e Penitrem A, considerados potenciais sentinelas de senescência no organismo canino.
Segundo os autores, esse mapeamento multi-ômico abre caminho para o desenvolvimento de sistemas de pontuação baseados em sangue e metabolômica, capazes de monitorar a progressão da idade biológica e a resposta a intervenções direcionadas à longevidade canina.
Terapia celular: promissora, mas ainda preliminar
A mesma pesquisa explorou o uso de células-tronco mesenquimais (MSCs) modificadas geneticamente para superexpressar NMNAT1, enzima que atua na via do NAD⁺. Em doze cães tratados, observou-se melhora em indicadores de função hepática e redução parcial de metabólitos associados à senescência.
No entanto, especialistas alertam que reverter biomarcadores isolados não equivale a comprovar rejuvenescimento funcional. Para o professor Matt Kaeberlein, co-diretor do Dog Aging Project, ainda é cedo para falar em reversão de envelhecimento canino sem validação longitudinal que comprove benefícios clínicos em tecidos e órgãos.
Dog Aging Project: base de dados para expandir a longevidade canina
Além de estudos isolados, a longevidade canina tem sido tema de projetos de grande escala como o Dog Aging Project, considerado o maior estudo longitudinal com cães de companhia do mundo, e o PAMEC, iniciativa brasileira sob a tutela de Matt Kaeberlein.
Com mais de 40 mil cães acompanhados, o projeto busca entender fatores genéticos, ambientais e comportamentais que modulam saúde, envelhecimento e expectativa de vida.
Ao incluir cães de diferentes raças, portes, dietas e estilos de vida, o Dog Aging Project amplia a representatividade dos dados, tornando o modelo canino mais próximo da realidade humana. Para a ciência da longevidade, essa abordagem oferece um laboratório natural para avaliar intervenções — de fármacos geroprotetores, como rapamicina, a mudanças ambientais — de forma mais translacional do que em roedores de laboratório.
Avanços na longevidade canina exigem rigor
A combinação de estudos multi-ômicos, terapias celulares experimentais e grandes coortes como o Dog Aging Project aponta caminhos promissores para expandir a longevidade canina.
Contudo, especialistas reforçam que o entusiasmo deve vir acompanhado de validação rigorosa. Biomarcadores precisam se traduzir em desfechos clínicos reais para que tutores, médicos-veterinários e cientistas possam confiar em protocolos que visem não apenas prolongar a vida dos cães, mas garantir qualidade e funcionalidade por mais tempo.
Referência:
Li, B., Ding, Y., Han, M. et al. Multi-omics analysis of canine aging markers and evaluation of stem cell intervention. Commun Biol 8, 905 (2025). https://doi.org/10.1038/s42003-025-08333-z

