A definição básica de longevidade, de acordo com o Dicionário Oxford, é a duração de vida (de um indivíduo, de um grupo, de uma espécie) mais longa que o comum. Alguém que supera a expectativa de vida média de uma determinada região ou país, por exemplo, é automaticamente chamado de “longevo”.
No Brasil, pessoas que superam a expectativa de vida (80,1 anos para as mulheres e 73,1 anos para os homens, segundo o IBGE) são, portanto, consideradas longevas, ainda que isso não signifique uma vida livre de doenças.
O pensamento natural, portanto, é associar a longevidade a um valor numérico. Não é exatamente isso, na verdade. Dois conceitos muito importantes precisam ser discutidos para que se entenda, de fato, o que é a tal ciência da longevidade sobre a qual centros de pesquisa pelo mundo inteiro estão se debruçando e estudando.
Diferenças entre Lifespan e Healthspan
O termo lifespan diz respeito ao número total de anos vividos por uma pessoa, independentemente do estado de vida e/ou saúde em que ela se encontra. Nas últimas décadas, houve um aumento do lifespan, ou seja, da expectativa de vida de pessoas em países desenvolvidos. Comentamos, no texto sobre o paradoxo da vida moderna, como avanços em medicina, tecnologia e desenvolvimento social permitiram esse crescimento.
O healthspan, por outro lado, tem a ver com o número de anos vividos sem doenças crônicas degenerativas ou qualquer outro tipo de comprometimento — seja físico ou psíquico. A contradição que vem sendo apontada pelos cientistas, chamada de healthspan-lifespan gap, é a de que, apesar dos avanços para aumentar o lifespan da população, o mesmo não é feito pelo healthspan.
Isso porque, com o avanço da idade, há o aumento no risco de doenças associadas ao envelhecimento, como as doenças cardiovasculares, catarata, síndrome da fraqueza muscular, diabetes tipo 2, Alzheimer, entre tantas outras. Muitas vezes, pessoas com mais de 60 anos passam os últimos anos de suas vidas com uma série de comorbidades, impossibilitadas de trabalhar, estudar, praticar esportes e até socializar.
Não raro, esse declínio é considerado “normal”, como se a perda de qualidade de vida, cognição, independência e liberdade fossem obrigatórias depois de uma determinada idade, o que não é — e nem precisa ser — verdade. Por isso, cultivar uma rotina saudável e equilibrada desde já é fundamental não só para evitar as doenças crônicas não-transmissíveis, mas também para viver por mais tempo e para que a sociedade possa acompanhar essa evolução de forma responsável e sustentável.
Por que a longevidade é um assunto importante para a sociedade?
Discutir longevidade não tem a ver exclusivamente com a vida individual de cada um. A expectativa de vida saudável, como chamamos o healthspan, é um elemento importante para uma sociedade sustentável e financeiramente equilibrada. Com o aumento da expectativa de vida geral, essa discussão tem se tornado cada vez mais urgente.
O cenário atual é preocupante para diferentes nações, inclusive as mais desenvolvidas. Isso porque o aumento da expectativa de vida e de doenças associadas à idade levam a uma sobrecarga nos sistemas de saúde e nas próprias economias familiares. As doenças da terceira idade são custosas e dependem, em muitos casos, de medicações contínuas, o que compromete a renda de uma família, por exemplo.
Além disso, com a redução da força de trabalho e dependência dos sistemas de previdência, muitos governos não conseguem encontrar meios de sustentar essa fatia da população, cada vez maior e mais vulnerável – em termos de saúde, finanças, etc. Isso leva a um quadro generalizado de desaceleração econômica.
Como alcançar a longevidade saudável?
Longevidade é mais do que viver muitos anos. É ter a chance de aproveitar os 60, 70, 80, 90 e muito mais com independência, saúde, amor, qualidade de vida e outros benefícios. Mas você talvez esteja se perguntando como chegar até essa longevidade saudável, já que parece impossível dissociar a ideia de envelhecimento e doença, certo?
A primeira coisa é levar as recomendações básicas de saúde que todos repetem aos quatro ventos ao pé da letra. Exercício físico e alimentação balanceada, com comida de verdade, são indiscutíveis. Mas prevenir as principais doenças associadas ao envelhecimento não se resume a isso.
Você conhece, por exemplo, os fatores que influenciam os genes da longevidade? Ativá-los — ou silenciá-los, em alguns casos — também é crucial para conseguir expandir os anos de vida com saúde. Temos um conteúdo completo sobre isso, que você pode acessar clicando aqui, mas de maneira resumida esses fatores são:
- AMPK
- SIRTUÍNAS
- mTOR
Estudos mostraram que em organismos em que há a ativação da AMPK e das sirtuínas, ocorre o aumento da longevidade; já o mTOR é o oposto, devemos, na medida do possível, silenciá-lo para promover o aumento da expectativa de vida e prevenção de doenças associadas à idade.
De forma geral, é possível ativar e silenciar naturalmente esses genes com duas atividades básicas: jejum intermitente e atividade física regular.
Alguns fármacos e nutracêuticos associados à longevidade
Os fatores que estimulam genes associados à longevidade podem ser ativados por meio do uso de determinadas substâncias – os fármacos e os nutracêuticos. Os mais estudados até agora são:
- Metformina: um medicamento usado no tratamento do diabetes tipo 2 que também foi associado a benefícios de saúde, como redução do risco de doenças cardiovasculares e câncer. Estudos em animais e humanos sugerem que a metformina pode prolongar a vida útil.
- Rapamicina: originalmente desenvolvida como um imunossupressor, a rapamicina mostrou-se eficaz em aumentar a expectativa de vida em vários modelos animais, incluindo moscas, vermes e camundongos. Acredita-se que isso ocorra por meio da inibicao de um complexo de proteína chamado mTOR.
- NMN: trata-se de um nutracêutico derivado da niacina que desempenha um papel importante na produção de energia celular, elevando os níveis de NAD+. Acredita-se que os níveis de NAD+ diminuam com a idade, o que pode contribuir para o envelhecimento. Suplementos precursores de NAD+, como o NMN, têm sido estudados como uma maneira de reverter esse processo.
- Resveratrol: um composto encontrado em uvas e vinho tinto que foi associado a benefícios para a saúde, como redução do risco de doenças cardiovasculares e diabetes. Estudos em animais sugerem que o resveratrol pode ativar as SIRT 1 e imitar os efeitos da restrição calórica, uma intervenção associada a uma vida útil mais longa em animais.
Além dessas substâncias, vale mencionar uma classe de medicamentos que também tem sido estudada como potencial tratamento de doenças relacionadas à idade. Estamos falando dos senolíticos.
Eles são compostos químicos que visam eliminar células senescentes, que são células que cessaram sua capacidade de se dividir e morrem lentamente, mas permanecem metabolicamente ativas e secretam substâncias que prejudicam o tecido circundante.
A acumulação dessas células está associada ao envelhecimento e ao desenvolvimento de doenças relacionadas à idade. Os senolíticos são estudados justamente como uma forma de retardar ou reverter o envelhecimento e prevenir ou tratar doenças associadas à idade, como doenças cardiovasculares, osteoartrite, catarata e câncer.
Existe um estilo de vida ideal para viver mais e melhor?
Como falamos aqui no Lifespan, a longevidade não depende de uma única bala de prata ou pílula mágica para acontecer. Mais do que iniciativas pontuais, o segredo é a constância.
É o básico que dá resultado: rotina de sono adequada, manejo do estresse, relacionamentos saudáveis com amigos e familiares, alimentação saudável e natural, prática de qualquer atividade física e por aí vai. Seguindo essa “receita” tradicional, muitos de nossos problemas modernos já estariam praticamente resolvidos.
Qualquer esforço a mais nessa conta, é claro, trará apenas benefícios e mais anos de vida com saúde.
Referências:
Garmany, Armin et al. “Longevity leap: mind the healthspan gap.” NPJ Regenerative medicine vol. 6,1 57. 23 Sep. 2021, doi:10.1038/s41536-021-00169-5
López-Otín, Carlos et al. “The hallmarks of aging.” Cell vol. 153,6 (2013): 1194-217. doi:10.1016/j.cell.2013.05.039
Zhu, Yi et al. “The Achilles’ heel of senescent cells: from transcriptome to senolytic drugs.” Aging cell vol. 14,4 (2015): 644-58. doi:10.1111/acel.12344
Campos, Juliane Cruz et al. “Exercise preserves physical fitness during aging through AMPK and mitochondrial dynamics.” Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America vol. 120,2 (2023): e2204750120. doi:10.1073/pnas.2204750120
Grabowska, Wioleta et al. “Sirtuins, a promising target in slowing down the ageing process.” Biogerontology vol. 18,4 (2017): 447-476. doi:10.1007/s10522-017-9685-9
Papadopoli, David et al. “mTOR as a central regulator of lifespan and aging.” F1000Research vol. 8 F1000 Faculty Rev-998. 2 Jul. 2019, doi:10.12688/f1000research.17196.1
Mohammed, Ibrahim et al. “A Critical Review of the Evidence That Metformin Is a Putative Anti-Aging Drug That Enhances Healthspan and Extends Lifespan.” Frontiers in endocrinology vol. 12 718942. 5 Aug. 2021, doi:10.3389/fendo.2021.718942
Yaku, Keisuke et al. “NAD metabolism: Implications in aging and longevity.” Ageing research reviews vol. 47 (2018): 1-17. doi:10.1016/j.arr.2018.05.006


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