Uma estratégia que combina senolíticos e células-tronco apresentou resultados superiores aos das duas terapias aplicadas isoladamente em camundongos. O tratamento associou o SenoVax, agente experimental desenvolvido para estimular o sistema imunológico contra células senescentes, a células-tronco mesenquimais produzidas a partir de células pluripotentes.

Publicado no Journal of Translational Medicine e associado à empresa de biotecnologia Immorta Bio, o estudo avaliou se a remoção de células senescentes poderia tornar os tecidos mais receptivos aos efeitos regenerativos das células-tronco.

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Embora os resultados apontem para uma ação sinérgica, os experimentos foram realizados em modelos de dano causado por substâncias tóxicas. Por isso, não demonstram que o tratamento prolongue a vida durante o envelhecimento normal.

Células senescentes podem limitar terapias regenerativas

As células-tronco mesenquimais, conhecidas pela sigla MSC, são células do tecido conjuntivo capazes de liberar moléculas que estimulam a reparação e reduzem processos inflamatórios. Seu principal efeito terapêutico não decorre da transformação direta em novos tecidos, mas da secreção de fatores regenerativos.

Apesar dos resultados obtidos em estudos pré-clínicos, ensaios clínicos com MSCs contra fibrose, inflamação e falência de órgãos apresentaram benefícios modestos.

Uma possível explicação é a presença de células senescentes no ambiente em que as células-tronco são introduzidas. Embora tenham interrompido permanentemente sua divisão, essas células continuam metabolicamente ativas e liberam um conjunto de moléculas inflamatórias e degradadoras conhecido como fenótipo secretor associado à senescência, ou SASP.

Os fatores do SASP podem prejudicar a proliferação, a diferenciação e a sobrevivência das células-tronco. A combinação de senolíticos e células-tronco buscou, assim, eliminar parte dessa barreira antes de estimular a regeneração.

Como funciona a vacina senolítica SenoVax

O SenoVax é apresentado como uma vacina capaz de treinar o sistema imunológico para reconhecer e eliminar células senescentes. O produto, no entanto, aparece descrito de maneiras diferentes nos materiais da empresa e no estudo.

Em documentos de patente, pedido regulatório e materiais de divulgação, o SenoVax é caracterizado como uma imunoterapia celular personalizada. Nesse procedimento, células do próprio paciente seriam retiradas por biópsia, induzidas à senescência e usadas para estimular células dendríticas produzidas em laboratório. Após a reinfusão, essas células ativariam linfócitos T contra células senescentes.

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No artigo científico, o tratamento é descrito como uma vacina mais simples, composta por peptídeos derivados de proteínas associadas à senescência. Os peptídeos foram administrados por via subcutânea com um adjuvante imunológico, com o objetivo de ativar células dendríticas diretamente no organismo.

Combinação reduz inflamação e favorece regeneração

Os pesquisadores testaram o tratamento em dois modelos experimentais. No primeiro, os camundongos receberam tetracloreto de carbono, substância tóxica que causa lesões crônicas no fígado e inflamação associada à senescência.

No segundo, os animais receberam baixas doses de doxorrubicina, quimioterápico capaz de induzir senescência celular. Esse modelo foi descrito pelos autores como uma forma de “envelhecimento acelerado”.

Em cada experimento, os animais foram divididos em quatro grupos: sem tratamento, SenoVax isoladamente, células-tronco isoladamente e combinação das duas intervenções.

No modelo de lesão hepática, todos os tratamentos reduziram os níveis de IL-11, IL-23, IL-6 e YKL-40, moléculas associadas à inflamação e ao SASP. A maior redução ocorreu no grupo que recebeu a terapia combinada.

Esses marcadores, porém, não são específicos da senescência celular. Como o estudo não avaliou indicadores mais diretamente associados a esse processo, como p16, p21 ou atividade de SA-β-gal, a eliminação de células senescentes foi inferida a partir das alterações inflamatórias, e não demonstrada diretamente.

Os níveis de Klotho, FGF-2, VEGF e GDF-11, proteínas relacionadas à regeneração, aumentaram após os tratamentos. As enzimas hepáticas AST e ALT, usadas como indicadores de danos ao fígado, diminuíram. Em ambos os casos, os maiores efeitos apareceram entre os animais tratados com SenoVax e células-tronco.

Resultados semelhantes foram observados no modelo induzido por doxorrubicina.

Dados de desempenho físico apresentam inconsistência

Os autores também avaliaram a função motora por meio do teste de descida em poste vertical, usado para medir coordenação e força em camundongos.

Segundo a discussão do artigo, a combinação teria melhorado o desempenho em cerca de 65%. A figura correspondente, porém, apresenta apenas os resultados das intervenções isoladas e não inclui uma barra referente à terapia combinada. Os números completos das monoterapias também não foram apresentados no texto.

Essa inconsistência impede uma avaliação independente do efeito relatado sobre o desempenho físico.

Sobrevida aumentou em modelo de dano agudo

No experimento de sobrevivência, os camundongos receberam doxorrubicina até a morte ou até atingirem um limite humanitário estabelecido pelos pesquisadores.

Todos os animais não tratados morreram até o 30º dia. No grupo que recebeu SenoVax e células-tronco, cerca de metade permanecia viva no 35º dia, enquanto aproximadamente 20% sobreviveram até o 40º dia. As intervenções isoladas aumentaram a sobrevida mediana apenas de forma moderada, para cerca de 35 dias.

Um comunicado de imprensa associado ao estudo divulgou aumento de 73% na sobrevida média e extensão aproximada de 84% na sobrevida mediana. A curta duração dos experimentos, contudo, aproxima o modelo de um quadro de dano agudo causado por toxinas, e não do envelhecimento biológico natural.

Os resultados indicam que retirar células senescentes pode favorecer a ação regenerativa das células-tronco mesenquimais em tecidos severamente lesionados. Ainda será necessário testar a estratégia em modelos de envelhecimento natural e demonstrar diretamente a eliminação das células senescentes antes que a combinação possa ser considerada uma intervenção voltada à longevidade.

Referência:

Ichim, T.E., Markov, N., Lopes, G. et al. Synergistic senolytic–regenerative therapy significantly extends healthspan and lifespanJ Transl Med 24, 745 (2026). https://doi.org/10.1186/s12967-026-08221-y

 

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  • Comitê Científico Lifespan

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