Passos mais curtos das patas dianteiras podem acompanhar a progressão da demência canina, segundo um estudo publicado na revista Frontiers in Veterinary Science. A associação permaneceu mesmo quando os pesquisadores consideraram a idade cronológica e os efeitos da dor sobre a mobilidade.

O trabalho acompanhou 88 cães idosos e geriátricos submetidos periodicamente a avaliações cognitivas, neurológicas, ortopédicas e funcionais. A cada aumento de dez pontos em uma escala de declínio cognitivo, houve uma redução média de 1,2% no comprimento relativo da passada das patas dianteiras.

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A mudança foi pequena e não permite diagnosticar demência canina de forma isolada. Os autores avaliam, porém, que a medição da passada pode se tornar um recurso complementar para acompanhar a mobilidade e a função cognitiva durante o envelhecimento dos cães.

Marcha pode refletir alterações no cérebro

Em humanos, mudanças na marcha podem surgir antes ou durante a progressão de síndromes demenciais. Pessoas com comprometimento cognitivo podem caminhar mais devagar, reduzir o comprimento dos passos e apresentar maior irregularidade nos movimentos.

Essas alterações não dependem apenas da força muscular ou da integridade das articulações. Caminhar exige planejamento motor, atenção, integração sensorial e adaptação do corpo ao ambiente — funções que mobilizam diferentes áreas do sistema nervoso.

Os pesquisadores investigaram se uma relação semelhante poderia ser observada na demência canina, também chamada de síndrome de disfunção cognitiva canina. A condição pode provocar desorientação, perda de memória, alterações nas interações sociais, ansiedade, distúrbios no ciclo de sono e vigília e eliminação de urina ou fezes em locais inadequados.

Sinais motores, como instabilidade, oscilação corporal e quedas, também são relatados em cães com declínio cognitivo. Ainda não está definido, porém, quanto dessas alterações decorre da neurodegeneração e quanto está relacionado à dor ou a doenças musculoesqueléticas comuns em animais idosos.

Estudo acompanhou cães a cada seis meses

Os animais participavam do Estudo Longitudinal de Neuroenvelhecimento Canino, conduzido pela Universidade Estadual da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. A coorte reúne cães de companhia de diferentes raças, portes e sexos.

Os participantes foram incluídos depois de atingir ao menos 75% da expectativa de vida estimada para seu porte. No momento da entrada no estudo, tinham em média 12,7 anos.

A cada seis meses, os cães passavam três dias no laboratório. As avaliações incluíam exames físicos, neurológicos e ortopédicos, testes cognitivos, análises de mobilidade, audição, visão e força, além de exames laboratoriais.

Os tutores também preenchiam questionários sobre a saúde e o comportamento dos animais. O comprometimento cognitivo foi estimado pela Canine Dementia Scale, ou CADES, instrumento de 17 itens que avalia orientação espacial, interação social, ciclo de sono e vigília e hábitos de eliminação.

A dor foi mensurada pelo Canine Brief Pain Inventory, questionário utilizado para avaliar a intensidade da dor crônica e sua interferência nas atividades cotidianas.

Como os pesquisadores mediram as passadas

Durante o teste de marcha, cada cão caminhava em seu próprio ritmo por um corredor de cinco metros, conduzido por uma guia frouxa. Os pesquisadores não usavam comandos verbais, alimentos ou outros estímulos para acelerar o movimento.

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As caminhadas eram filmadas, e o comprimento das passadas era calculado a partir do número de passos necessários para percorrer a distância. Como cães maiores naturalmente apresentam passadas mais longas, as medidas foram normalizadas pela altura na cernelha.

A análise separou os membros torácicos — as patas dianteiras — dos membros pélvicos, ou patas traseiras.

Ao longo do acompanhamento, o comprimento relativo das passadas dianteiras diminuiu. Inicialmente, essa redução também parecia acompanhar o avanço da idade. Quando idade, cognição e dor foram incluídas no mesmo modelo estatístico, porém, o declínio cognitivo permaneceu associado às passadas mais curtas, enquanto a idade isolada deixou de ser um preditor significativo.

Um aumento de dez pontos na CADES correspondeu, em média, a uma redução de aproximadamente 1,2% no comprimento relativo da passada dianteira.

A velocidade de caminhada também foi incluída em uma análise adicional. Quando velocidade e comprimento da passada foram avaliados conjuntamente, apenas o comprimento da passada manteve associação significativa com o escore cognitivo.

O resultado sugere que a organização espacial do movimento pode captar aspectos do declínio funcional que não aparecem apenas pela observação da velocidade.

Efeito não apareceu nas patas traseiras

Os pesquisadores não identificaram uma associação consistente entre declínio cognitivo e comprimento das passadas traseiras.

A diferença pode estar relacionada às funções biomecânicas e neurológicas de cada par de membros. As patas traseiras atuam principalmente na propulsão, enquanto as dianteiras também participam da frenagem, da mudança de direção e da estabilização postural.

O controle das patas dianteiras pode exigir uma integração mais intensa de informações sensoriais e de comandos motores produzidos pelo córtex cerebral. Com a deterioração dessa integração sensório-motora, alterações sutis poderiam aparecer primeiro ou de forma mais nítida nos membros anteriores.

As patas traseiras também são frequentemente afetadas por problemas ortopédicos, como osteoartrite do quadril, doenças do joelho e alterações lombossacrais. A sobreposição desses fatores pode dificultar a identificação de uma assinatura específica do declínio cognitivo.

Essa explicação ainda é uma hipótese fisiológica. O estudo mediu associações na marcha, mas não examinou diretamente a atividade cerebral responsável pelas diferenças entre os membros.

Dor também reduz o comprimento da passada

Pontuações mais altas no questionário de dor foram associadas a passadas dianteiras menores. A relação entre cognição e comprimento da passada, entretanto, continuou significativa depois do ajuste estatístico para dor.

O resultado indica que a mudança na marcha não parece ser explicada apenas pela osteoartrite ou por outras condições dolorosas. Também reforça que a redução das passadas em cães idosos é multifatorial.

Na prática veterinária, um cão que começa a caminhar com passos menores precisa ser avaliado para diferentes causas possíveis. Artrite, doenças da coluna cervical, alterações neurológicas, perda muscular e comprometimento cognitivo podem afetar o padrão de marcha.

Passos curtos não diagnosticam demência canina

O estudo não demonstrou que as passadas curtas sejam um sinal precoce específico de demência canina. Os dados mostram uma associação entre o comprimento das passadas dianteiras e o comprometimento cognitivo relatado pelos tutores.

A magnitude observada foi pequena e insuficiente para transformar a medida em um teste diagnóstico individual. Seu uso mais provável seria longitudinal: comparar a marcha do mesmo animal ao longo do tempo e combinar os dados com avaliações cognitivas, clínicas e comportamentais.

Os pesquisadores também não estabeleceram uma relação de causa e efeito. Não é possível concluir se o declínio cognitivo provoca a redução das passadas, se ambos avançam devido a processos biológicos compartilhados ou se outras alterações do envelhecimento contribuem para os dois fenômenos.

Cognição e dor foram estimadas por questionários preenchidos pelos tutores, e não por um diagnóstico clínico independente. Diferenças anatômicas e biomecânicas entre raças também podem influenciar a marcha, mesmo após o ajuste pela altura.

A pesquisa incluiu apenas cães capazes de caminhar e tolerar os testes. Animais com comprometimento neurológico ou motor mais avançado podem ter ficado sub-representados.

Cães ajudam a investigar o envelhecimento cerebral

A síndrome de disfunção cognitiva canina compartilha características clínicas e neuropatológicas com doenças neurodegenerativas humanas. Cães envelhecem no mesmo ambiente que seus tutores, apresentam doenças relacionadas à idade de forma espontânea e possuem ampla diversidade genética, corporal e comportamental.

Essas características tornam o envelhecimento canino relevante tanto para a medicina veterinária quanto para a gerociência comparativa.

A identificação de métricas objetivas, simples e repetíveis pode ajudar pesquisadores a acompanhar a progressão do declínio funcional e avaliar intervenções voltadas à preservação da cognição e da mobilidade.

Neste estudo, o comprimento da passada pôde ser calculado a partir de vídeos realizados em um corredor curto, com alta concordância entre avaliadores. O método ainda precisa ser validado em amostras maiores, diferentes ambientes e populações com estágios mais avançados de demência canina.

Referência:

Rafatpanah Baigi S, Stywall A, Yang CC, Mondino A, Fefer G, Panek WK, Simon KE, Case BC, Gruen ME and Olby NJ (2026) Thoracic limb stride length is associated with cognitive impairment in aging dogs. Front. Vet. Sci. 13:1814017. doi: 10.3389/fvets.2026.1814017

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  • Comitê Científico Lifespan

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