A semaglutida pode desacelerar alguns processos moleculares associados ao envelhecimento, segundo um estudo clínico publicado na revista Nature Communications. Após 32 semanas de tratamento, o medicamento reduziu em 9% o ritmo de envelhecimento biológico medido por um relógio epigenético.

A pesquisa oferece uma das primeiras evidências obtidas em um ensaio randomizado e controlado por placebo sobre a relação entre semaglutida e envelhecimento em humanos. Os resultados, no entanto, não significam que o medicamento rejuvenesça o organismo ou aumente a expectativa de vida.

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Os pesquisadores analisaram dados de adultos vivendo com HIV e lipohipertrofia, condição caracterizada pelo acúmulo de gordura, principalmente na região abdominal. Parte dos participantes recebeu injeções semanais de semaglutida, enquanto o restante foi tratado com placebo.

Ao fim do período, o grupo que recebeu o agonista do receptor de GLP-1 apresentou alterações favoráveis em marcadores relacionados ao envelhecimento do sangue, do cérebro, do coração, dos rins, do fígado e do metabolismo.

Semaglutida reduziu ritmo de envelhecimento epigenético

Para investigar os efeitos da semaglutida sobre o envelhecimento, os cientistas recorreram a relógios epigenéticos. Essas ferramentas analisam padrões de metilação do DNA, modificações químicas que regulam a atividade dos genes sem alterar sua sequência.

Mudanças nesses padrões podem ser usadas para estimar a idade biológica do organismo, o ritmo de deterioração fisiológica e o risco de doenças ou mortalidade.

O principal resultado foi registrado pelo DunedinPACE, relógio criado para medir a velocidade do envelhecimento biológico. Segundo os autores, a semaglutida reduziu esse ritmo em 9% na comparação com o placebo.

O tratamento também produziu resultados favoráveis no PCGrimAge, marcador associado ao risco de mortalidade por todas as causas e ao desenvolvimento de doenças relacionadas à idade.

Outros relógios epigenéticos apontaram alterações em processos ligados à inflamação e à saúde metabólica e cardiovascular.

Esses resultados não indicam que os participantes ficaram literalmente mais jovens. Os relógios epigenéticos são biomarcadores estatísticos e ainda não está comprovado que mudanças em seus resultados produzam ganhos concretos de longevidade.

Redução de gordura e inflamação pode explicar efeito

A semaglutida ganhou espaço no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 por reduzir o apetite, favorecer a perda de peso e melhorar o controle da glicose. Estudos também demonstraram benefícios cardiovasculares em determinados grupos de pacientes.

Os mesmos efeitos podem ajudar a explicar a associação observada entre semaglutida e envelhecimento biológico.

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No ensaio clínico original, o medicamento reduziu de maneira expressiva a gordura visceral, que se acumula ao redor dos órgãos e está associada à resistência à insulina, à inflamação sistêmica e ao maior risco cardiovascular.

A redução desse tecido pode diminuir a liberação de moléculas inflamatórias e aliviar o estresse metabólico sobre diferentes órgãos.

Pessoas vivendo com HIV também podem apresentar ativação persistente do sistema imunológico, mesmo quando o vírus está controlado pela terapia antirretroviral. Essa inflamação crônica é considerada um dos fatores que contribuem para o envelhecimento acelerado nessa população.

“Dados emergentes também sugerem que medicamentos GLP-1 podem reprogramar determinadas células em diferentes órgãos, o que ajudaria a explicar por que observamos efeitos em vários relógios de envelhecimento”, afirmou Michael Corley, pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego e primeiro autor do estudo.

Os pesquisadores ainda não conseguem determinar quanto do resultado decorreu diretamente da ação da semaglutida e quanto foi consequência da perda de gordura, da redução da inflamação ou da melhora metabólica.

Pessoas com HIV podem revelar mecanismos do envelhecimento

O estudo foi realizado em uma população com características clínicas específicas. Isso limita a aplicação imediata dos resultados a pessoas sem HIV ou sem alterações na distribuição de gordura corporal.

Segundo Corley, porém, muitos dos mecanismos investigados também participam do envelhecimento na população geral.

“Como esses processos podem aparecer mais cedo ou de maneira mais pronunciada em pessoas com HIV, essa comunidade pode nos ajudar a identificar intervenções capazes de melhorar a expectativa de vida saudável de forma mais ampla”, disse o pesquisador.

Pessoas vivendo com HIV apresentam maior risco de algumas condições associadas à idade, como doenças cardiovasculares, alterações metabólicas, fragilidade e comprometimento neurocognitivo. Esse quadro tornou a população relevante para pesquisas sobre inflamação crônica e envelhecimento.

Estudo anterior encontrou respostas diferentes entre pacientes

Os resultados seguem um estudo-piloto publicado na revista npj Aging. A pesquisa acompanhou durante 24 semanas pessoas com HIV e doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, conhecida pela sigla MASLD.

Entre os participantes, 42% apresentaram redução no ritmo de envelhecimento medido pelo DunedinPACE. Esse grupo também teve maior diminuição da gordura acumulada no fígado.

Outro marcador associado ao risco de mortalidade apresentou melhora em 34% dos participantes. Uma estimativa epigenética do comprimento dos telômeros aumentou em aproximadamente 49% deles.

Os telômeros são estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos que ajudam a proteger o material genético. Seu encurtamento é associado à divisão celular e a diferentes processos relacionados ao envelhecimento.

O estudo, porém, não possuía grupo placebo e encontrou respostas heterogêneas. Parte dos participantes não apresentou melhora nos biomarcadores, reforçando que os possíveis efeitos da semaglutida sobre o envelhecimento podem variar entre indivíduos.

Semaglutida ainda não é uma terapia antienvelhecimento

Os autores ressaltam que o estudo não demonstra que a semaglutida reverta o envelhecimento, previna doenças relacionadas à idade ou prolongue a vida.

A análise utilizou amostras de um ensaio originalmente desenvolvido para investigar gordura corporal, e não envelhecimento. O número de participantes também foi limitado, e o tratamento durou apenas 32 semanas.

“Não estamos dizendo que a semaglutida reverte o envelhecimento ou torna as pessoas mais jovens”, afirmou Corley. “O que observamos é um sinal de que ela pode desacelerar alguns processos biológicos associados ao envelhecimento.”

Ensaios clínicos maiores e mais longos serão necessários para confirmar os resultados e verificar se as mudanças epigenéticas se traduzem em redução de doenças, melhora funcional ou aumento da longevidade.

Pesquisas futuras também deverão comparar diferentes medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 e investigar se seus efeitos sobre o envelhecimento são ampliados por exercícios, alimentação adequada e melhora do sono.

Por enquanto, os dados posicionam a semaglutida como um possível objeto de estudo da gerociência, mas não como um medicamento antienvelhecimento comprovado.

Referência:

Corley, Michael J et al. “Semaglutide Slows Epigenetic Aging in People with HIV-associated lipohypertrophy: Evidence from a Randomized Controlled Trial.” medRxiv : the preprint server for health sciences 2025.07.09.25331038. 14 Jul. 2025, doi:10.1101/2025.07.09.25331038. Preprint.

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  • Comitê Científico Lifespan

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