Quando começamos a envelhecer?

Longevidade e envelhecimento são conceitos que pressupõem uma relação íntima. E, ao contrário do que muitos pensam, não começamos a envelhecer só a partir de uma determinada idade — como aos 60 anos, por exemplo. A verdade é que nós começamos a envelhecer quando nascemos. Inclusive, um estudo da British Heart Foundation foi além e descobriu que o processo de envelhecimento pode começar ainda dentro do útero, antes do nascimento oficial.

Independentemente do marco etário, se é na concepção ou no nascimento, precisamos entender quando começamos a envelhecer, e de que forma, para novas terapias sejam desenvolvidas a fim de mitigar os problemas e doenças associados à idade. Ainda que as mudanças físicas e cognitivas mais perceptíveis ocorram à medida que avançamos na idade adulta, os processos subjacentes ao envelhecimento começam muito antes e podem dar sinais sutis.

Mais do que isso: podem ser estimulados ou desacelerados de acordo com o estilo de vida, alimentação, rotina de sono, uso de fármacos e nutracêuticos, entre outros. Para responder essa pergunta, de quando começamos a envelhecer, de forma mais completa, é fundamental passarmos pelas razões pelas quais envelhecemos e que mudanças se dão no organismo, a nível celular, que podem nos ajudar a desvendar a idade biológica, e não só cronológica, do organismo.

Por que nós envelhecemos?

Os “Hallmarks of Aging” (Marcadores do Envelhecimento) são um conjunto de nove processos biológicos que foram identificados como contribuintes principais para o envelhecimento e o desenvolvimento de doenças relacionadas à idade. Eles foram publicados no periódico Cell em 2013, pelos pesquisadores Carlos López-Otín, Maria A. Blasco, Linda Partridge, Manuel Serrano e Guido Kroemer. Esses marcadores representam os principais mecanismos pelos quais o envelhecimento ocorre e têm sido objeto de intensa pesquisa na área da medicina da longevidade.

  1. Instabilidade Genômica: Refere-se ao acúmulo de danos no DNA ao longo do tempo, resultando em mutações, rearranjos cromossômicos e falhas na replicação e reparo do DNA. Essas alterações podem levar a disfunções celulares e contribuir para o envelhecimento.
  2. Encurtamento dos Telômeros: Os telômeros são sequências de DNA localizadas nas extremidades dos cromossomos, que protegem o material genético durante a replicação. Com cada divisão celular, os telômeros encurtam gradualmente. O encurtamento excessivo dos telômeros está associado ao envelhecimento celular e à senescência.
  3. Alterações Epigenéticas: São modificações químicas que ocorrem no DNA e nas proteínas que o envolvem, sem alterar a sequência do DNA. Essas modificações influenciam a expressão gênica, regulando quais genes são ativados ou desativados. Com o envelhecimento, ocorrem alterações epigenéticas que afetam o funcionamento celular e contribuem para o processo de envelhecimento.
  4. Perda da Proteostase: Refere-se à incapacidade das células de manter corretamente a dobra, o funcionamento e a eliminação adequada das proteínas. Com o envelhecimento, há um acúmulo de proteínas mal dobradas ou danificadas, o que pode levar a disfunções celulares e ao desenvolvimento de doenças relacionadas à idade.
  5. Detecção de Nutrientes Desregulada: É o desequilíbrio no processo de detecção e resposta a sinais nutricionais pelas células. Com o envelhecimento, ocorrem alterações nas vias de sinalização celular que regulam o metabolismo e o envelhecimento, resultando em desregulação na resposta aos nutrientes.
  6. Disfunção Mitocondrial: As mitocôndrias são as organelas responsáveis pela produção de energia celular. Com o envelhecimento, ocorrem danos nas mitocôndrias, levando a uma diminuição na produção de energia, aumento do estresse oxidativo e liberação de substâncias prejudiciais, o que contribui para o envelhecimento celular.
  7. Senescência Celular: É um estado de parada irreversível do ciclo celular em que as células não podem mais se dividir. As células senescentes se acumulam ao longo do tempo e secretam moléculas inflamatórias que podem causar inflamação crônica e contribuir para o envelhecimento e o desenvolvimento de doenças relacionadas à idade.
  8. Exaustão das Células-Tronco: As células-tronco têm a capacidade de se autorrenovar e se diferenciar em diferentes tipos celulares. Com o envelhecimento, as células-tronco podem se esgotar progressivamente ou perder sua capacidade de se autorrenovar, comprometendo a capacidade de regeneração e reparação dos tecidos.
  9. Falha na Comunicação Intracelular: Refere-se à deterioração das vias de comunicação entre as células, que são essenciais para o funcionamento adequado dos tecidos e órgãos. Com o envelhecimento, ocorrem falhas nas vias de sinalização e na comunicação entre as células, o que afeta negativamente a homeostase e a função celular.

Novas explicações para o envelhecimento

Em 2022, um simpósio em Copenhague, na Dinamarca, visou discutir algumas lacunas deixadas pelo estudo de López-Otin em 2013, propondo novas explicações e hipóteses para o envelhecimento e o desenvolvimento de doenças associadas à idade. Os resultados foram publicados no período científico Aging, em agosto de 2022.

O primeiro marco sugerido é a autofagia comprometida. A autofagia, processo pelo qual as células consomem seus próprios componentes danificados para obter energia, e também para fazer uma manutenção em tudo o que está funcionando incorretamente, é prejudicada durante o envelhecimento. Segundo os pesquisadores, ela costumava se enquadrar como parte da proteostase, mas a manutenção de proteínas e a manutenção de organelas são dois processos distintos.

O segundo é a desregulação do splicing. Isso se refere ao processo de splicing que constrói RNA a partir do DNA, que se sabe estar comprometido em pessoas mais velhas. Isso não é o mesmo que instabilidade genômica, que se refere ao DNA em si, nem é o mesmo que alterações epigenéticas, que se referem à metilação do DNA.

O terceiro é o distúrbio do microbioma. O microbioma intestinal é frequentemente estudado como causa e consequência do envelhecimento, pois se sabe que ele muda com o avanço da idade.

O quarto é a alteração das propriedades mecânicas. Curiosamente, os pesquisadores incluem mudanças intracelulares e extracelulares neste marco. Provavelmente, o problema intracelular mais conhecido envolve a lâmina, o envoltório nuclear que protege o DNA; a disfunção laminar é a característica chave da progéria, uma doença que causa o envelhecimento rápido em crianças. Este artigo também observa como as alterações mecânicas impedem a mobilidade de fibroblastos e células imunes.

A propriedade mecânica mais conhecida é a ligação cruzada extracelular do colágeno por glicação. Isso resulta na perda de elasticidade do tecido e altera o comportamento das células.

O quinto e último novo marco proposto é a inflamação. O papel da inflamação sistêmica no envelhecimento é extremamente bem estabelecido: inflamação crônica de baixo grau (inflammaging). Embora se tenha considerado que o inflammaging faça parte do marco existente de comunicação intercelular alterada, os pesquisadores propõem que sua peculiaridade e efeitos abrangentes o tornam digno de seu próprio marco.

Referência:

López-Otín, Carlos et al. “The hallmarks of aging.” Cell vol. 153,6 (2013): 1194-217. doi:10.1016/j.cell.2013.05.039

Schmauck-Medina, Tomas et al. “New hallmarks of ageing: a 2022 Copenhagen ageing meeting summary.” Aging vol. 14,16 (2022): 6829-6839. doi:10.18632/aging.204248

Autor

  • Comitê Científico Lifespan

    O Comitê Científico do Lifespan é composto por jornalistas, pesquisadores, médicos e estudiosos da longevidade humana. Nosso objetivo é analisar, interpretar e trazer ao público as principais notícias e descobertas desse ramo, com base na ciência.

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