A longevidade é um fenômeno complexo influenciado por genética, ambiente e estilo de vida. Mas quais são, exatamente, os chamados “genes da longevidade” e qual o seu peso no desenrolar dos anos de vida?
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Neste texto, vamos compreender melhor o papel que os genes da longevidade desempenham na determinação da expectativa de vida e como eles têm relação com os centenários e supercentenários.
Primeiros avanços da longevidade
A busca por entender o impacto da genética na longevidade começou no início do século XX, coincidindo com melhorias significativas no ambiente que aumentaram drasticamente a expectativa de vida humana.
O acesso a fatores como água limpa, comida, melhores habitações e assistência médica aumentou significativamente a expectativa de vida média. Além disso, avanços na saúde pública reduziram a mortalidade infantil, melhoraram as taxas de sobrevivência na infância e controlaram doenças infecciosas.
Mas não é apenas isso que determina quanto uma pessoa pode viver – principalmente se estivermos pensando em healthspan, ou seja, os anos vividos com saúde. Por exemplo: a expectativa de vida no Brasil está em torno de 77 anos, mas algumas pessoas desafiam essas estatísticas, vivendo muito além da média.
Há exemplos desse tipo no mundo inteiro.
Para desvendar os segredos de suas vidas prolongadas, os cientistas voltaram sua atenção para o estudo de centenários (pessoas que vivem entre 100 e 109 anos) e supercentenários (aqueles que atingem 110 anos ou mais).
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Características comuns de pessoas longevas
Surpreendentemente, pessoas que vivem por mais tempo têm pouco em comum quando se trata de educação, renda ou profissão. Em vez disso, suas semelhanças residem em seus estilos de vida.
Muitos deles não fumam, mantêm um peso corporal saudável e lidam eficazmente com o estresse. Além disso, um número significativo deles são mulheres.
Essas pessoas também têm menos probabilidade de sofrer de doenças crônicas relacionadas à idade, como pressão alta, doenças cardíacas, câncer e diabetes, em comparação com seus pares.
A longevidade corre no sangue
Uma descoberta que merece destaque no estudo da longevidade é que os irmãos e filhos de pessoas que vivem muito tendem a ter vidas mais longas e saudáveis. Esse fenômeno sugere que a genética e estilos de vida compartilhados desempenham papéis cruciais na determinação de quanto tempo vivemos.
Genitores centenários frequentemente têm filhos que são menos propensos a doenças relacionadas à idade, e quando essas doenças aparecem, elas o fazem mais tarde na vida do que na população em geral.
Estudos demonstraram que os filhos de pais longevos têm uma taxa de mortalidade 20-30% menor do que aqueles sem pais longevos. Além disso, os irmãos dos centenários têm uma probabilidade 2-3 vezes superior de viver até aos 90 anos ou mais do que a população em geral.
Essas descobertas sugerem que a longevidade ocorre nas famílias e que fatores familiares também contribuem para a expectativa de vida.
Qual o papel da genética na longevidade?
Embora a genética, sem dúvida, desempenhe um papel na longevidade, é uma área ainda em exploração. Alguns pesquisadores defendem que cerca de 25% da variação na expectativa de vida humana seja geneticamente determinada. Outros, porém, afirmam que apenas 10% dessa variação é determinada, de fato, pelos genes da longevidade.
Alguns destes genes bem conhecidos e que são associados a vidas mais longas e saudáveis incluem:
SIRT1: SIRT1 é um membro da família de proteínas sirtuínas, conhecidas por seu papel na regulação de processos celulares relacionados ao envelhecimento e longevidade. A ativação de SIRT1 tem sido associada a uma melhor saúde metabólica e aumento da expectativa de vida em vários organismos.

KLOTHO: O gene KLOTHO codifica uma proteína que está envolvida na regulação de múltiplos processos relacionados à idade, incluindo a homeostase do cálcio e a sinalização da insulina. Variantes desse gene têm sido associadas a uma expectativa de vida prolongada e a um menor risco de doenças relacionadas à idade.
MTOR: O gene MTOR (alvo mecanicista da rapamicina) desempenha um papel fundamental no crescimento celular e no metabolismo. A inibição da atividade do MTOR mostrou-se capaz de prolongar a expectativa de vida em vários modelos animais.
IGF-1: A via do IGF-1 (fator de crescimento semelhante à insulina 1) desempenha um papel no crescimento e desenvolvimento. Níveis mais baixos de IGF-1 têm sido associados a uma expectativa de vida aumentada em alguns estudos, uma vez que a sinalização reduzida do IGF-1 é pensada para retardar o processo de envelhecimento.
P53: O gene P53, frequentemente chamado de “guardião do genoma”, está envolvido na reparação do DNA e na regulação do ciclo celular. Variantes do P53 que conferem capacidades aprimoradas de reparo do DNA podem contribuir para uma maior longevidade.
PON1: O gene PON1 codifica uma enzima que desempenha um papel na proteção contra o estresse oxidativo e a inflamação. Certas variantes genéticas do PON1 têm sido associadas à longevidade, uma vez que melhoram as propriedades protetoras da enzima.
APOE: Certas variantes do gene APOE, notadamente APOE2 e APOE3, foram associadas a uma expectativa de vida aumentada e a um menor risco de doença de Alzheimer. Essas variantes estão relacionadas a um melhor metabolismo lipídico e saúde cardiovascular geral.
FOXO3: Variantes do gene FOXO3 têm sido associadas à longevidade excepcional, especialmente em populações do leste asiático. Este gene está envolvido na regulação de processos celulares relacionados ao envelhecimento, resistência ao estresse e reparo do DNA.
CETP: Certas variantes do gene CETP foram associadas a um menor risco de doenças cardíacas e uma expectativa de vida aumentada. Este gene está envolvido no metabolismo de lipídios e na regulação do colesterol.
No entanto, é importante observar que essas variações genéticas não estão presentes em todos os indivíduos de vida longa, o que indica a presença de genes não identificados que contribuem para a longevidade.
Longevidade vai além da genética
Você pode não ter parentesco com pessoas longevas, mas isso não significa que sua longevidade está ameaçada. Como mencionamos no começo desse texto, estima-se que apenas 10% da genética realmente influencie a longevidade – o restante, determinado pelo estilo de vida e pelo ambiente, está em suas mãos.
Veja, abaixo, alguns hábitos que podem potencializar a sua saúde e aumentar a longevidade:
Alimente-se bem: uma dieta equilibrada e nutritiva fornece nutrientes essenciais que apoiam a saúde geral. Ela pode ajudar a prevenir doenças crônicas, como doenças cardíacas, diabetes e certos tipos de câncer, prolongando a expectativa de vida. Além disso, uma dieta saudável promove o controle adequado do peso, reduzindo o risco de problemas de saúde relacionados à obesidade.
Pratique o jejum intermitente: a restrição calórica obtida por meio do jejum intermitente pode promover a longevidade ao aprimorar a saúde metabólica, melhorar a sensibilidade à insulina e apoiar processos de reparo celular. Esses efeitos podem ajudar a reduzir o risco de doenças relacionadas à idade, como diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.
Faça alguma atividade física: o exercício regular apresenta inúmeros benefícios, tanto para a expectativa de vida quanto para a duração da saúde. Ela melhora a saúde cardiovascular, a força muscular, a densidade óssea e o bem-estar mental. O exercício regular também reduz o risco de doenças crônicas e estimula um envelhecimento saudável.
Controle o estresse: o estresse crônico acelera o processo de envelhecimento e aumenta o risco de problemas de saúde. Técnicas de gerenciamento do estresse, como meditação e respiração profunda, podem reduzir os hormônios do estresse, diminuindo seu impacto negativo na expectativa de vida e na duração da saúde.
Durma melhor: um sono de qualidade é crucial para reparar e manter as funções do corpo. Ele contribui para a saúde cognitiva, a função imunológica e o bem-estar emocional. Por conta disso, uma rotina de sono consistente e restauradora é capaz de promover uma vida mais longa e saudável.
Tenha bons relacionamentos: conexões sociais sólidas e um sistema de apoio social robusto estão associados a um menor estresse, melhor saúde mental e até mesmo taxas de mortalidade mais baixas. Esse é um dos segredos das pessoas mais longevas do mundo, que residem nas chamadas Blue Zones, ou Zonas Azuis.
Mantenha o raciocínio afiado: participar de atividades mentalmente estimulantes e continuar aprendendo ao longo da vida são cuidados que ajudam a manter a função cognitiva e a memória. Isso pode prevenir o início do declínio cognitivo, melhorando tanto a expectativa de vida quanto a duração da saúde.
Pare de beber e fumar: o consumo excessivo de álcool e o tabagismo são fatores de risco importantes para doenças crônicas e morte prematura. Reduzir ou eliminar esses hábitos pode prolongar significativamente a expectativa de vida e promover uma melhor duração da saúde.
Faça exames regulares e testes genéticos: a detecção precoce e o manejo de condições de saúde por meio de exames de saúde regulares e testes genéticos podem prevenir doenças de progredir para estágios avançados, aumentando assim tanto a expectativa de vida quanto a duração da saúde.
Agora você já sabe que o que determina uma boa longevidade não é só uma genética específica, mas uma combinação de fatores. Naturalmente, os genes citados têm um peso, bem como o histórico familiar, mas há muito o que se fazer para que o healthspan, bem como o lifespan, sejam acessíveis a toda a população.
Referências:
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Caruso, Calogero et al. “How Important Are Genes to Achieve Longevity?.” International journal of molecular sciences vol. 23,10 5635. 18 May. 2022, doi:10.3390/ijms23105635
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MedlinePlus. Is longevity determined by genetics? Disponível em: https://medlineplus.gov/genetics/understanding/traits/longevity/.
Passarino, Giuseppe et al. “Human longevity: Genetics or Lifestyle? It takes two to tango.” Immunity & ageing : I & A vol. 13 12. 5 Apr. 2016, doi:10.1186/s12979-016-0066-z


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