Diversos padrões alimentares já foram associados à redução de mortalidade. O que raramente se vê é uma comparação direta entre eles, dentro da mesma coorte e sob o mesmo modelo estatístico.
Um estudo recente publicado no periódico Science Advances fez exatamente isso. Utilizando dados de mais de 100 mil participantes do UK Biobank, pesquisadores compararam cinco dos principais índices dietéticos utilizados na literatura científica para avaliar qual deles poderia ser considerado a melhor dieta para a longevidade.
Como o estudo foi conduzido
A análise incluiu 103.649 indivíduos, com idade média de 58 anos, livres de câncer e doença cardiovascular no início do acompanhamento. Todos haviam respondido a pelo menos duas avaliações alimentares de 24 horas.
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Cada participante recebeu pontuação em cinco padrões alimentares:
- AHEI-2010 (Alternate Healthy Eating Index): um índice desenvolvido para avaliar a qualidade geral da dieta com base em evidências de redução de doenças crônicas. Ele atribui maior pontuação a alimentos como vegetais, frutas, grãos integrais, gorduras poli-insaturadas e peixes, e penaliza consumo de carnes processadas, bebidas açucaradas e sódio.
- AMED (Alternate Mediterranean Diet): uma adaptação do padrão alimentar mediterrâneo tradicional. Ela enfatiza alto consumo de azeite, legumes, frutas, vegetais, grãos integrais, peixes e consumo moderado de álcool, especialmente vinho, além de menor ingestão de carnes vermelhas.
- hPDI (healthful Plant-Based Diet Index): mede a adesão a uma dieta predominantemente baseada em plantas, mas diferencia alimentos vegetais saudáveis (como grãos integrais, nozes e vegetais) de opções menos favoráveis, como grãos refinados e alimentos vegetais ultraprocessados.
- DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension): desenvolvida para controle da pressão arterial. Ela prioriza frutas, vegetais, laticínios com baixo teor de gordura, grãos integrais e redução de sódio.
- DRRD (Diabetes Risk Reduction Diet): desenhada especificamente para reduzir risco de diabetes tipo 2. Seu escore privilegia alta ingestão de fibras e gorduras insaturadas, baixo índice glicêmico, menor consumo de carnes processadas e restrição de bebidas açucaradas.
Os escores foram divididos em quintis, do menor ao maior nível de adesão. Os modelos foram ajustados para múltiplos fatores, incluindo IMC, tabagismo, atividade física, nível socioeconômico e doenças metabólicas prévias.
Qual dieta se destacou
Todas as dietas consideradas saudáveis mostraram associação com menor mortalidade. No entanto, a magnitude do efeito variou.
A DRRD (Diabetes Risk Reduction Diet) apresentou o resultado mais forte. Indivíduos no quintil mais alto de adesão tiveram 24% menor risco de morte em comparação com o quintil mais baixo.
AHEI e AMED mostraram redução de 20%, enquanto DASH e hPDI apresentaram reduções de 19% e 18%, respectivamente.
Quando os pesquisadores estimaram expectativa de vida aos 45 anos, a diferença entre extremos foi de aproximadamente três anos para homens que seguiam mais de perto a DRRD.
Entre mulheres, o maior ganho foi observado com a dieta Mediterrânea, em torno de 2,3 anos.
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O que explica essa diferença
A dieta focada na redução do risco de diabetes é estruturada para reduzir risco metabólico. Ela prioriza alta ingestão de fibras, menor índice glicêmico e restrição de bebidas açucaradas.
Na análise de componentes isolados, dois fatores se destacaram. Maior consumo de fibra esteve fortemente associado à menor mortalidade. Já dietas com maior índice glicêmico mostraram associação desfavorável. Bebidas açucaradas apareceram como o item alimentar mais prejudicial.
O padrão que mais protegeu foi justamente aquele com maior foco em estabilidade glicêmica.
Dieta ou genética?
O estudo também incorporou um escore poligênico de longevidade, baseado em 19 variantes genéticas previamente associadas a maior sobrevida.
O impacto do perfil genético favorável foi mais modesto do que o da dieta. A diferença estimada entre extremos do escore genético foi de cerca de 1,4 anos para homens e 1,7 anos para mulheres.
Quando dieta e genética foram analisadas em conjunto, os efeitos foram aproximadamente aditivos. Indivíduos com alta adesão à DRRD e perfil genético favorável apresentaram ganhos estimados de até 3,2 anos em homens e 5,5 anos em mulheres.
Os dados sugerem que a alimentação exerce impacto comparável — e, em alguns cenários, superior — ao da predisposição genética conhecida.
Como interpretar esses resultados?
Trata-se de um estudo observacional, o que significa que as associações não estabelecem causalidade. Além disso, as comparações envolvem extremos de adesão, o que pode superestimar diferenças em relação à prática cotidiana.
Os intervalos de confiança indicam que, em alguns cenários, os ganhos absolutos podem ser menores do que as estimativas centrais. Também é importante considerar que os cinco padrões alimentares compartilham características semelhantes, como maior consumo de alimentos minimamente processados e menor ingestão de açúcares refinados.
Ainda assim, o padrão que mais enfatiza controle glicêmico apresentou a associação mais consistente com longevidade.
Existe, então, uma melhor dieta?
Os dados sugerem que, entre os padrões analisados, a DRRD apresentou a associação mais forte com maior expectativa de vida.
No entanto, o ponto central pode não ser o nome da dieta, mas o eixo metabólico que ela privilegia. Padrões que reduzem carga glicêmica, aumentam ingestão de fibras e minimizam bebidas açucaradas parecem oferecer vantagem sistemática.
Se existe uma “melhor dieta” para a longevidade, ela provavelmente é aquela que preserva estabilidade metabólica ao longo das décadas.




