Parar de beber álcool ou manter a aptidão com exercício físico: o que pesa mais para a longevidade? Por décadas, estudos epidemiológicos analisaram separadamente o impacto do consumo de álcool e da atividade física sobre o risco de morte.
Um novo estudo longitudinal com quase 25 mil adultos noruegueses propõe uma leitura integrada desse debate ao avaliar, ao longo de 17 anos, como mudanças simultâneas na aptidão cardiorrespiratória e no consumo de álcool se associam à mortalidade por todas as causas.
O estudo, baseado em dados do Trøndelag Health Study (HUNT), avaliou como alterações simultâneas nos níveis de consumo de álcool e na aptidão física se relacionaram com desfechos de mortalidade em uma população adulta acompanhada em dois momentos separados por aproximadamente uma década.
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Os pesquisadores utilizaram informações coletadas em rodadas sucessivas do HUNT, um dos maiores estudos populacionais de saúde em andamento no mundo. Os dados incluem questionários detalhados, medições clínicas e ligação com registros nacionais de mortalidade da Noruega.
A amostra analisada reuniu cerca de 25 mil participantes adultos que possuíam informações completas sobre consumo de álcool, indicadores de aptidão cardiorrespiratória e status vital ao longo do período de acompanhamento.
Consumo de álcool x exercício físico: como foram avaliados?
A aptidão cardiorrespiratória foi estimada por meio de um modelo validado que não requer teste de esforço, incorporando variáveis como idade, circunferência da cintura, frequência cardíaca de repouso e nível de atividade física autorreferido. Com base nessa estimativa, os participantes foram classificados de acordo com sua posição relativa na distribuição de aptidão para sexo e faixa etária, com atenção especial ao grupo situado nos 20% mais baixos.
O consumo de álcool foi categorizado segundo limites semanais padronizados, definidos como até 140 gramas de álcool por semana para homens e até 70 gramas para mulheres. Mudanças no padrão de consumo entre as duas avaliações foram consideradas na análise, incluindo transições entre abstinência, consumo dentro das recomendações e consumo acima desses limites.
Associação entre aptidão, álcool e mortalidade
Os resultados indicaram que participantes que permaneceram ou passaram a integrar o quintil inferior de aptidão cardiorrespiratória apresentaram risco de mortalidade mais elevado em comparação com aqueles que se mantiveram fora desse grupo, independentemente de seu padrão de consumo de álcool.
Em análises conjuntas, o risco associado à baixa aptidão persistiu em praticamente todas as categorias de consumo alcoólico. Por outro lado, indivíduos que permaneceram fora do grupo de menor aptidão apresentaram risco de mortalidade mais baixo, mesmo quando houve aumento no consumo de álcool ao longo do período avaliado.
O estudo também observou que o declínio da aptidão ao longo do tempo esteve associado a maior risco de mortalidade, inclusive entre participantes que se mantiveram abstêmios ou dentro dos limites recomendados de consumo alcoólico.
Quantificação do risco observado
Em termos quantitativos, participantes que permaneceram no grupo de menor aptidão apresentaram um aumento de risco de mortalidade que variou aproximadamente entre 46% e 68% quando comparados àqueles que se mantiveram fisicamente aptos e abstêmios. Esse padrão foi consistente em diferentes subgrupos definidos pelo consumo de álcool.
De acordo com os autores, a magnitude da associação entre aptidão cardiorrespiratória e mortalidade superou a observada para muitas das mudanças nos padrões de consumo alcoólico analisadas no estudo.
Esses achados se alinham a estudos anteriores conduzidos em coortes norueguesas e de outros países, que investigaram separadamente as associações entre consumo de álcool, aptidão física e mortalidade. A literatura indica que, em populações com níveis relativamente baixos de consumo alcoólico, a relação entre álcool e mortalidade pode variar conforme o desfecho analisado e os fatores de confusão considerados.
O Trøndelag Health Study (HUNT) é um estudo populacional iniciado em 1984 no condado de Trøndelag, na Noruega, que convida todos os residentes adultos a participar de avaliações periódicas de saúde. Ao longo de quatro grandes ondas (HUNT1 a HUNT4), o estudo reuniu dados abrangentes sobre histórico de saúde, estilo de vida, medições clínicas e amostras biológicas, com possibilidade de vinculação a registros nacionais.





