A crononutrição, campo que estuda a relação entre o horário das refeições e os ritmos circadianos, mostra que o tempo da alimentação atua como um marcador do envelhecimento metabólico.

Nossos relógios biológicos coordenam a liberação de hormônios, o uso da energia e a regeneração celular. Quando nos alimentamos fora do ritmo natural — com jantares tardios ou longos períodos em jejum irregular — essa sincronia se perde, favorecendo resistência à insulina, inflamação crônica e outros distúrbios associados à idade.

Em modelos animais e humanos, comer em horários atípicos já foi ligado ao ganho de peso e à menor eficiência metabólica. Mas em idosos, esse fenômeno permanecia pouco estudado até agora.

Um novo estudo da Harvard Medical School e da Universidade de Manchester acompanhou quase três mil pessoas por mais de três décadas para responder a uma pergunta crucial:

Como o envelhecimento muda o relógio das refeições e o que isso revela sobre nossa longevidade?

Com o passar dos anos, comemos mais tarde

Pesquisadores da Harvard Medical School e da Universidade de Manchester analisaram dados de 2.945 adultos britânicos, acompanhados por mais de 30 anos no University of Manchester Longitudinal Study of Cognition in Normal Healthy Old Age.

O que eles descobriram é que, à medida que envelhecemos, nossas refeições se tornam progressivamente mais tardias — especialmente o café da manhã.

Em média, o horário do desjejum atrasou entre 2,9 e 7,9 minutos por década, o que representa cerca de 45 minutos ao longo da vida.

A análise identificou dois padrões distintos de comportamento alimentar:

Alimentação precoce — pessoas que mantiveram horários consistentes e matinais;
Alimentação tardia — indivíduos que foram postergando suas refeições com o tempo.

Essa diferença, aparentemente pequena, teve impacto direto na sobrevida.

Em um acompanhamento de dez anos, o grupo de alimentação tardia apresentou uma taxa de sobrevivência de 86,7%, contra 89,5% no grupo que comia mais cedo.

Os autores destacam que esse atraso não é casual. Ele tende a acompanhar a progressão de doenças físicas e psicológicas — como fadiga, depressão e multimorbidade — e pode refletir um enfraquecimento do sistema circadiano com o avanço da idade.

Relógio genético versus biológico

Parte dos participantes do estudo — 1.226 idosos — também tiveram seus dados genéticos analisados. O objetivo era entender se as variações nos horários das refeições poderiam estar ligadas à predisposição biológica para determinados cronotipos, ou seja, à tendência natural de ser mais ativo pela manhã ou à noite.

Os resultados confirmam essa influência. Indivíduos com maior escore poligênico para o cronotipo vespertino — o chamado “relógio noturno” — tendem a se alimentar mais tarde em todas as refeições. 

Cada desvio padrão nesse escore genético esteve associado a um café da manhã 7,2 minutos mais tarde, um almoço 3,1 minutos mais tarde e um jantar 3,9 minutos mais tarde.

Curiosamente, o escore genético para obesidade não mostrou relação com os horários das refeições, sugerindo que o ritmo interno, e não o metabolismo energético em si, é o principal fator que dita esse comportamento.

Os autores observam que, com o envelhecimento, a influência do relógio genético parece se manter, mas a capacidade do corpo de se ajustar a ele diminui. O resultado é um crescente desequilíbrio entre o tempo biológico e o tempo ambiental — uma forma sutil de desorganização metabólica que pode acelerar o processo de envelhecimento.

O café da manhã como marcador de longevidade

Entre todos os padrões analisados, o horário do café da manhã foi o mais fortemente associado à mortalidade.

A cada hora de atraso nessa refeição, o risco de morte por todas as causas aumentou entre 8% e 11%, mesmo após o controle para fatores como idade, sono, hábitos de vida e nível socioeconômico.

O mesmo não foi observado para o almoço ou o jantar, o que reforça a ideia de que o início do dia é um ponto crítico na regulação circadiana. O café da manhã funciona como um “sinal metabólico” que sincroniza os relógios periféricos do corpo — principalmente no fígado, no pâncreas e nos músculos esqueléticos. 

Quando esse gatilho é postergado, o organismo permanece em um estado de “jejum biológico”, e a eficiência no uso da glicose e na produção de energia se reduz.

Os pesquisadores sugerem que o atraso progressivo do café da manhã em idosos pode refletir uma combinação de fatores: piora da qualidade do sono, redução do apetite matinal, presença de depressão ou fadiga e dificuldade no preparo das refeições. Em conjunto, esses elementos apontam para um marcador precoce de declínio funcional e perda de sincronização metabólica.

Mais do que uma simples rotina, o horário do café da manhã pode expressar a integridade do ritmo interno, e sua preservação parece associar-se a uma vida mais longa e mais saudável.

Referência:

Dashti, H.S., Liu, C., Deng, H. et al. Meal timing trajectories in older adults and their associations with morbidity, genetic profiles, and mortalityCommun Med 5, 385 (2025). https://doi.org/10.1038/s43856-025-01035-x

Autor

  • Comitê Científico Lifespan

    O Comitê Científico do Lifespan é composto por jornalistas, pesquisadores, médicos e estudiosos da longevidade humana. Nosso objetivo é analisar, interpretar e trazer ao público as principais notícias e descobertas desse ramo, com base na ciência.

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