Dieta cetogênica e longevidade: o que a ciência diz?

A dieta cetogênica tem ganhado popularidade não apenas pelos benefícios à saúde cerebral, controle de glicemia e perda de peso, mas também por seu potencial impacto na longevidade. Mas quais são os mecanismos estimulados pela dieta cetogênica que promovem um tempo de vida mais longo?

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A seguir, vamos compreender melhor como essa abordagem alimentar pode estar relacionada a uma vida mais longa e saudável, com base em evidências científicas e pesquisas em andamento.

O que é a dieta cetogênica?

A dieta cetogênica (DC) é o tipo mais extremo de dieta com baixo consumo de carboidratos. Trata-se de um regime alimentar com ingestão muito baixa deste macroelemento, com ingestão moderada de proteínas e alta de gorduras. Sua composição geralmente inclui 5% a 10% de carboidratos, 30% a 35% de proteínas e 55% a 60% de gorduras.

Diferentes tipos de dieta cetogênica

Os diferentes tipos de dieta cetogênica compartilham dois princípios: são ricas em gorduras e pobres em carboidratos. Veja abaixo algumas das variações mais comuns:

Dieta cetogênica padrão (DCP)

É a forma mais comum e tradicional da dieta cetogênica, com a seguinte proporção de macronutrientes: 10% de carboidratos, 20% de proteínas e 70% de gorduras.

Dieta cetogênica cíclica (DCC)

Essa variação inclui cinco dias de dieta cetogênica padrão e dois dias de uma dieta não cetogênica. Ela pode ser seguida para reduzir peso corporal e auxiliar na recuperação muscular, mas é fundamental consultar um especialista em nutrição antes de começar.

Dieta cetogênica direcionada (DCD)

A proporção de macronutrientes da DCD é igual à da DCP. A diferença é que, na DCD, você consome os carboidratos antes ou após os treinos como fonte de energia. Esse tipo funciona melhor para quem realiza exercícios de alta intensidade.

Dieta cetogênica rica em proteínas

Semelhante à versão padrão, mas com 15% mais proteínas. Recomendada para pessoas que desejam perder peso.

Alimentos permitidos e proibidos

Segundo o FoodData Central, os alimentos a evitar incluem:

  • Grãos e amidos, como arroz e trigo
  • Refrigerantes
  • A maioria das frutas, exceto frutas vermelhas
  • Leguminosas e feijões
  • Vegetais ricos em amido, como batatas
  • Gorduras não saudáveis
  • Álcool

Já os alimentos que você deve priorizar incluem:

  • Ovos
  • Manteiga e creme de leite
  • Queijos
  • Nozes e sementes, como amêndoas e linhaça
  • Óleos saudáveis, como azeite de oliva
  • Abacates
  • Vegetais com baixo teor de carboidratos, como cebolas e pimentões
  • Condimentos
  • Peixes gordurosos, como salmão e atum
  • Carnes, como frango, bacon e carne vermelha

Como funciona a dieta cetogênica?

Ao começar uma dieta cetogênica, você reduz ou elimina o consumo de carboidratos. O corpo humano utiliza carboidratos como principal fonte de energia para manter o funcionamento do organismo.

A redução dos carboidratos leva o corpo ao estado de cetose. Nesse estado, ao esgotar os estoques de carboidratos, o corpo passa a utilizar gordura como fonte de energia, produzindo corpos cetônicos como subproduto. Esses corpos cetônicos atuam como uma alternativa ao uso da glicose.

Leia mais: O que são as doenças associadas ao envelhecimento?

Esse processo reduz os níveis de glicose no sangue, resultando em menor produção de insulina e diminuição do armazenamento de gordura e glicose, contribuindo para benefícios como a perda de peso.

Longevidade e dieta cetogênica: o que sabemos?

O envelhecimento é caracterizado pelo acúmulo de danos celulares ao longo do tempo, levando à disfunção de órgãos e sistemas. Pesquisas sugerem que intervenções alimentares, como a dieta cetogênica, podem influenciar positivamente os processos associados ao envelhecimento, incluindo inflamação, saúde metabólica e função celular.

  1. Redução da inflamação crônica
    A inflamação crônica de baixo grau é um dos principais fatores que impulsionam o envelhecimento e está associada a doenças como Alzheimer, diabetes e aterosclerose. A dieta cetogênica reduz marcadores inflamatórios, como a proteína C reativa, graças à menor produção de glicose e à presença de corpos cetônicos, que têm propriedades anti-inflamatórias.

  2. Melhora da saúde metabólica
    A cetose, induzida pela dieta cetogênica, resulta em menores níveis de glicose e insulina no sangue. Estudos mostram que essa regulação metabólica pode reduzir o risco de doenças crônicas relacionadas ao envelhecimento, como resistência à insulina e obesidade, contribuindo para um envelhecimento mais saudável.

  3. Estímulo da autofagia celular
    A dieta cetogênica tem sido associada à ativação da autofagia, um processo de reciclagem celular que remove componentes danificados e melhora a funcionalidade celular. Esse processo é essencial para mitigar os efeitos do envelhecimento, prevenindo a degeneração celular.

  4. Ativação de vias de longevidade
    A restrição de carboidratos e o aumento da disponibilidade de corpos cetônicos ativam vias metabólicas associadas à longevidade, como a via do AMPK e a redução da atividade do mTOR. Essas vias são bem conhecidas por seu papel na extensão da vida em estudos pré-clínicos.

  5. Proteção contra o estresse oxidativo
    O estresse oxidativo, causado pelo acúmulo de radicais livres, é um dos principais fatores do envelhecimento. O beta-hidroxibutirato, um corpo cetônico produzido durante a dieta cetogênica, tem propriedades antioxidantes, protegendo células contra danos e promovendo um envelhecimento saudável.

Evidências científicas

Embora os estudos em humanos sobre a relação direta entre a dieta cetogênica e a longevidade sejam limitados, pesquisas em modelos animais oferecem insights importantes.

  • Modelos de roedores: Estudos demonstraram que a dieta cetogênica prolonga a vida útil de camundongos e melhora a saúde metabólica e cognitiva com o envelhecimento. Esses benefícios são atribuídos à redução do estresse oxidativo e à melhora da função mitocondrial.

  • Epilepsia e neuroproteção: A dieta cetogênica tem sido usada há décadas no tratamento de epilepsia refratária, demonstrando sua capacidade de proteger o cérebro contra danos. Essas propriedades neuroprotetoras têm implicações para doenças neurodegenerativas, como Alzheimer, que afetam a longevidade.

  • Diabetes e saúde cardiovascular: Em pacientes obesos e diabéticos, a dieta cetogênica melhorou significativamente parâmetros metabólicos, como redução do colesterol total, aumento do HDL e controle glicêmico. Esses fatores estão diretamente relacionados à saúde a longo prazo e à prevenção de doenças que comprometem a longevidade.

Limitações e riscos da dieta cetogênica

Embora a dieta cetogênica apresente benefícios promissores, ela também possui limitações. A manutenção prolongada desse padrão alimentar pode levar a desequilíbrios nutricionais, excesso de gordura no fígado, formação de cálculos renais e déficits de micronutrientes. Além disso, sua aplicação deve ser cuidadosamente ajustada às necessidades individuais, especialmente em idosos, que possuem maior vulnerabilidade metabólica.

Conclusão

A dieta cetogênica é uma ferramenta poderosa que pode impactar positivamente os processos associados ao envelhecimento, promovendo mais saúde e longevidade. Embora as evidências científicas ainda sejam mais robustas em estudos com animais, os mecanismos biológicos subjacentes, como a redução da inflamação, o estímulo à autofagia e a regulação metabólica, apontam para seu potencial como estratégia de longevidade.

No entanto, para ser eficaz e segura, a adoção da dieta cetogênica deve ser orientada por profissionais de saúde, levando em consideração os benefícios e os riscos a longo prazo. Novas pesquisas em humanos serão fundamentais para consolidar sua relação com a longevidade.

Referências:

MASOOD, W.; ANNAMARAJU, P.; UPPALURI, K. R. Ketogenic Diet. StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing, 2023.

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JOHNSTONE, A. M. et al. Effects of a high-protein ketogenic diet on hunger, appetite, and weight loss in obese men feeding ad libitum. The American Journal of Clinical Nutrition, v. 87, n. 1, p. 44-55, 2008.

CROSBY, L. et al. Ketogenic Diets and Chronic Disease: Weighing the Benefits Against the Risks. Frontiers in Nutrition, v. 8, p. 702802, 2021.

Autor

  • Comitê Científico Lifespan

    O Comitê Científico do Lifespan é composto por jornalistas, pesquisadores, médicos e estudiosos da longevidade humana. Nosso objetivo é analisar, interpretar e trazer ao público as principais notícias e descobertas desse ramo, com base na ciência.

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