A ciência da longevidade não beneficia apenas os humanos; ela está transformando a maneira como entendemos e cuidamos dos nossos amigos de quatro patas também. Um exemplo disso é uma nova ferramenta desenvolvida por pesquisadores da Universidade Estadual da Carolina do Norte (NC State), que permite avaliar a fragilidade canina em animais idosos de forma prática e científica.
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Essa inovação tem o potencial de revolucionar os cuidados veterinários, fornecendo informações preciosas — e com embasamento científico — para decisões sobre tratamentos, qualidade de vida e envelhecimento saudável.
Senioridade em alta
O envelhecimento é um tema cada vez mais popular – entre cientistas, na mídia e entre práticas médicas humanas e veterinárias. O aumento da população de animais de estimação levou a um crescimento significativo no número de animais geriátricos, já que eles, assim como os humanos, têm vivido cada vez mais.
Por exemplo, uma pesquisa na França mostrou que a população canina com 12 anos ou mais aumentou de 14,5% em 2012 para 15,8% em 2014. Este cenário destaca a necessidade urgente de a medicina veterinária se adaptar a esses pacientes e desenvolver procedimentos específicos para avaliá-los.
O que é envelhecimento?
Envelhecimento é um processo fisiológico multifatorial definido como “a perda e deterioração de propriedades funcionais em nível celular, tecidual e orgânico”. Essa perda leva à redução da homeostase e à vulnerabilidade crescente a doenças e mortalidade.
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Contudo, há uma diferença entre envelhecimento biológico e cronológico. O envelhecimento biológico, ou senescência, ocorre em ritmos diferentes para cada indivíduo, enquanto o cronológico se refere à passagem do tempo. Falamos disso aqui.
O que é a fragilidade canina e por que ela importa?
A fragilidade canina é uma condição multifatorial que reflete o declínio funcional e fisiológico associado ao envelhecimento. Em humanos, é caracterizada por perda de força, mobilidade reduzida, cansaço constante, perda de peso e diminuição da atividade social. Em cães idosos, observa-se padrões similares, mas até recentemente não havia ferramentas específicas para avaliá-las.
Natasha Olby, catedrática em gerontologia e líder do estudo, destaca que “a fragilidade canina é uma condição comum, mas pouco compreendida”. Muitos tutores enfrentam dúvidas sobre o que esperar durante o envelhecimento de seus cães, especialmente ao decidir sobre tratamentos invasivos ou cuidados paliativos. A avaliação da fragilidade pode fornecer previsões mais claras sobre a saúde e a expectativa de vida dos cães, ajudando tutores a tomar decisões mais informadas.
Como funciona a nova ferramenta de avaliação?
A ferramenta combina um questionário de triagem com avaliações físicas realizadas por veterinários. O questionário aborda cinco domínios principais, inspirados em ferramentas de avaliação de fragilidade usadas em humanos:
- Estado nutricional: Avalia apetite e condição corporal geral, incluindo perda de peso significativa.
- Nível de exaustão e energia: Investiga cansaço frequente ou falta de vitalidade.
- Mobilidade: Examina a capacidade de locomoção, como dificuldades para caminhar ou subir escadas.
- Condição muscular: Analisa a massa muscular, identificando sinais de atrofia.
- Atividade social: Observa mudanças no comportamento social, como menor interação com tutores ou outros animais.
Cães classificados como comprometidos em três ou mais domínios são considerados frágeis. O estudo mostrou que esses cães têm o dobro de probabilidade de morrer dentro de seis meses, em comparação aos não frágeis.
O impacto da fragilidade canina na longevidade
A fragilidade não é apenas um indicador de saúde geral, mas também um fator crucial na longevidade. Cães frágeis são mais vulneráveis a doenças e complicações associadas ao envelhecimento. Essa ferramenta de triagem oferece uma perspectiva valiosa para tutores e veterinários, permitindo ajustes em dieta, suplementação, terapias físicas ou mudanças no ambiente do animal.
Como cuidar do cão idoso?
Avaliações veterinárias periódicas
É recomendável realizar exames geriátricos anuais para cães em estágio pré-geriátrico e semestrais para cães geriátricos ou frágeis. Esses exames incluem avaliação de fragilidade, testes laboratoriais (painel sanguíneo, urinalíse) e um questionário ambiental para identificar necessidades específicas.
Nutrição e longevidade
Uma avaliação nutricional detalhada deve ser parte central dos cuidados geriátricos. Dietas balanceadas, ricas em proteínas de alta qualidade e suplementadas com ômega-3, podem combater a sarcopenia e a inflamação. Além disso, antioxidantes e triglicerídeos de cadeia média ajudam no manejo de disfunções cognitivas. Esses cuidados nutricionais são fundamentais para mitigar os efeitos da fragilidade.
Gerenciamento ambiental e estimulação cognitiva
O ambiente é essencial para o bem-estar dos cães idosos. Caminhadas adaptadas às condições clínicas e atividades como natação ajudam a manter a massa muscular. Estimulação cognitiva com brinquedos interativos e alterações no ambiente, como rampas para facilitar o acesso, são medidas eficazes para melhorar a qualidade de vida.
Inovação no cuidado de cães idosos
A ferramenta desenvolvida pela NC State representa um avanço significativo no cuidado de cães idosos. Ao unir ciência de ponta a práticas acessíveis, ela oferece uma nova abordagem para entender as necessidades dos cães em envelhecimento. Os tutores ganham clareza para tomar decisões difíceis, enquanto os veterinários dispõem de um recurso adicional para personalizar os cuidados.
Referência:
Russell, Katharine J et al. “Establishing a clinically applicable frailty phenotype screening tool for aging dogs.” Frontiers in veterinary science vol. 11 1335463. 25 Sep. 2024, doi:10.3389/fvets.2024.1335463

