Por muito tempo, os antioxidantes foram associados a uma gama de benefícios para a saúde, incluindo a longevidade. A Vitamina C, por exemplo, é um dos mais conhecidos ativos antiaging em dermocosméticos. A tese era a de que os antioxidantes seriam capazes de neutralizar os radicais livres, contribuindo, assim, para um efeito antievelhecimento. Mas será que, de fato, os antioxidantes contribuem para a longevidade ou estamos diante de um mito da indústria?
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Neste artigo, nós mergulharemos nas teorias por trás dos radicais livres; o papel dos antioxidantes no envelhecimento e na longevidade; e por que o uso dessas substâncias como uma panaceia para viver mais tem sido questionado pela pesquisa científica recente.
Teorias do Envelhecimento
O envelhecimento tem sido explicado por diferentes teorias ao longo do tempo, que tentam elucidar os mecanismos biológicos por trás desse processo complexo.
Veja, a seguir, um resumo das principais teorias:
- Teoria do programa genético: Proposta com base nas descobertas de Leonard Hayflick em 1961, sugere que o envelhecimento é programado geneticamente. A limitação no número de divisões celulares está ligada ao encurtamento dos telômeros, que protegem o DNA. Estudos mostram que a telomerase pode reverter o encurtamento dos telômeros, retardando o envelhecimento em experimentos com animais.
- Teoria dos erros: Atribui o envelhecimento a erros aleatórios na transcrição e tradução do DNA, levando à produção de proteínas defeituosas e disfunção celular. No entanto, estudos recentes mostraram pouca evidência de que esses erros sejam suficientes para causar o envelhecimento.
- Teoria do desgaste: Sugere que o envelhecimento ocorre quando células e tecidos se desgastam ao longo do tempo devido ao estresse físico e oxidativo. No entanto, estudos com animais ativos desafiam essa ideia, mostrando que o desgaste por si só não explica o envelhecimento.
- Teoria do encurtamento dos telômeros: Enfatiza que o encurtamento progressivo dos telômeros limita a capacidade de divisão celular, levando à senescência ou morte celular, o que acelera o envelhecimento.
- Teoria das ligações cruzadas: Afirma que o acúmulo de macromoléculas que se ligam de maneira irreversível compromete a função dos tecidos, como colágeno, levando ao envelhecimento e a doenças relacionadas, como problemas vasculares.
- Teoria autoimune: Com o envelhecimento, o sistema imunológico perde a capacidade de distinguir células do corpo de invasoras, resultando em respostas autoimunes que danificam os próprios tecidos e contribuem para doenças relacionadas à idade.
- Teoria da glicação: A glicação, que envolve a reação entre açúcares e proteínas, gera produtos finais (AGEs) que se acumulam nos tecidos, causando rigidez e problemas vasculares, sendo fatores importantes no envelhecimento.
- Teoria do dano oxidativo: Proposta por Denham Harman, sugere que o envelhecimento é causado pelo acúmulo de danos oxidativos ao longo do tempo. Embora antioxidantes ajudem a neutralizar esses radicais livres, o equilíbrio entre a produção de radicais e a capacidade de reparo é perdido com a idade.
- Teoria das células senescentes: Células que param de se dividir liberam substâncias inflamatórias que aceleram o envelhecimento. A eliminação dessas células, conhecida como terapia senolítica, tem sido vista como uma estratégia promissora para retardar o envelhecimento.
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Antioxidantes e longevidade: quando o mito começou?
A ideia de que os antioxidantes poderiam retardar o envelhecimento tem suas raízes na Teoria Mitocondrial dos Radicais Livres do Envelhecimento (Mitochondrial Free Radical Theory of Ageing, MFRTA), proposta pela primeira vez na década de 1950.
Essa teoria sugere que o envelhecimento é impulsionado pelo acúmulo de danos causados pelos radicais livres, especialmente as Espécies Reativas de Oxigênio (ROS), produzidas durante o metabolismo energético nas mitocôndrias. Esses radicais livres são altamente reativos e podem atacar componentes celulares essenciais, como DNA, proteínas e lipídios, prejudicando a função celular e contribuindo para o envelhecimento.
Com base nessa teoria, os antioxidantes ganharam popularidade como uma solução antienvelhecimento. Esses compostos, presentes em vitaminas (como C e E), resveratrol e outros nutrientes, têm a capacidade de neutralizar os radicais livres, evitando que eles causem danos às células.
A observação de que espécies animais com uma maior taxa metabólica — ou seja, aquelas que gastam mais energia — tendem a ter uma menor expectativa de vida, juntamente com a correlação entre maior atividade antioxidante e longevidade, deu suporte à ideia de que aumentar os níveis de antioxidantes no organismo poderia prolongar a vida.
Estudos realizados em laboratório pareciam reforçar essa hipótese, mostrando que o aumento dos níveis de antioxidantes em animais, como camundongos, parecia prolongar sua vida útil. Além disso, outra descoberta importante foi a de que a restrição calórica reduzia a produção de radicais livres no corpo, diminuindo a formação de ROS. Isso levou à suposição de que, ao reduzir o estresse oxidativo, os antioxidantes poderiam imitar os benefícios da restrição calórica e, portanto, retardar o envelhecimento.
Essas evidências iniciais fizeram com que os antioxidantes fossem amplamente promovidos como uma abordagem eficaz para aumentar a longevidade e prevenir doenças relacionadas ao envelhecimento — embora isso seja um mito.
Pesquisas mais recentes têm mostrado que os efeitos dos antioxidantes na expectativa de vida são mais complexos e, em alguns casos, contraditórios.
Estudos com humanos não conseguiram replicar consistentemente os resultados observados em animais, e há indícios de que os radicais livres também desempenham papéis benéficos na sinalização celular e na resposta ao estresse. Assim, a ideia de que os antioxidantes são uma solução simples para o envelhecimento começou a ser questionada.
Antioxidantes aumentam o lifespan?
Apesar da popularidade dos antioxidantes como solução antienvelhecimento, a ciência tem mostrado que eles não prolongam a vida. Grandes estudos, incluindo uma meta-análise com mais de 230 mil pessoas, indicam que suplementos como vitamina A, E e betacaroteno podem, na verdade, aumentar ligeiramente o risco de mortalidade.
Uma razão para isso é que, quando ingeridos, os antioxidantes nem sempre atingem as áreas celulares onde são mais necessários. Além disso, até mesmo animais geneticamente modificados para produzir grandes quantidades de enzimas antioxidantes não viveram mais tempo.
Curiosamente, estudos recentes sugerem que os radicais livres, que os antioxidantes deveriam neutralizar, podem ter benefícios. Eles atuam como sinalizadores que ativam mecanismos celulares de defesa e reparo. Isso explica, por exemplo, por que o exercício físico, que gera radicais livres, melhora a saúde: esses radicais livres acionam sistemas de proteção que ajudam a prevenir o envelhecimento.
Antioxidantes: um risco para a saúde?
Outro ponto importante é que o uso indiscriminado de suplementos antioxidantes pode trazer riscos à saúde. Alguns estudos indicam que a suplementação excessiva de antioxidantes pode aumentar o risco de certos tipos de câncer e doenças cardíacas. Por exemplo, a vitamina E, que era amplamente promovida por suas propriedades antioxidantes, foi associada a um risco aumentado de câncer de próstata em homens que tomavam suplementos em doses elevadas.
Adicionalmente, um estudo publicado no Journal of the National Cancer Institute mostrou que suplementos antioxidantes, como betacaroteno, podem aumentar o risco de câncer de pulmão em fumantes. Esse efeito adverso se deve ao fato de que os antioxidantes podem, em algumas circunstâncias, interferir nos processos naturais de apoptose, permitindo que células danificadas continuem a proliferar.
Conclusão
Embora a teoria dos radicais livres e o uso de antioxidantes tenham sido, por muito tempo, apontados como uma solução promissora para retardar o envelhecimento e prolongar a a longevidade, as evidências científicas mais recentes mostram que isso é, possivelmente, mais um mito da indústria da saúde.
Em vez de depender exclusivamente de antioxidantes para combater o envelhecimento, os estudos sobre longevidade sugerem que abordagens integradas, que incluem intervenções como restrição calórica, exercício físico e novas terapias celulares, são mais promissoras para uma vida longa e saudável.
Referências:
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The Conversation. Monday’s medical myth: a diet high in antioxidants slows the aging process. Disponível em: https://theconversation.com/mondays-medical-myth-a-diet-high-in-antioxidants-slows-the-aging-process-2982

