Qual é o papel da microbiota na longevidade?

Pode não parecer, mas a microbiota, o conjunto de microrganismos que habitam nosso intestino, desempenha um papel essencial na longevidade e no processo de envelhecimento humano. Não à toa, pesquisadores consideram a disbiose (que nada mais é do que uma microbiota em desequilíbrio) como um dos Marcadores do Envelhecimento.

Pesquisas recentes indicam que, por meio de mudanças no estilo de vida, é possível modular a microbiota para retardar o processo degenerativo, reduzir o risco de doenças associadas à idade e promover um envelhecimento mais saudável, o que impacta diretamente na longevidade. 

Como a microbiota atua ao longo da vida?

A microbiota intestinal está presente em nosso organismo desde o nascimento. No início, ela é influenciada por fatores como tipo de parto, amamentação e exposição a microorganismos. É também pouco diversa, com predominância de  apenas dois tipos: a  Bifidobacterium em bebês amamentados, e Bacteroides em bebês alimentados com fórmula.

Já na idade adulta, desenvolvemos um “microbioma central” necessário para as funções imunológicas e metabólicas. Seus principais componentes, as bactérias, devem estar em equilíbrio constante entre as bactérias comensais (boas) e as patógenas (ruins) para promover essas duas tarefas vitais. 

Duas fases da vida podem desequilibrar o microbioma, porém:  

  • A puberdade, período em que as mudanças hormonais afetam a microbiota; e
  • A velhice, estágio em que a diversidade microbiana diminui.

Quando a diversidade microbiana diminui, há maior chance de proliferação de micróbios associados à fragilidade, o que pode levar a perda de massa e força na musculatura esquelética (sarcopenia) e diminuição progressiva da massa óssea (osteoporose).

Envelhecimento do microbioma intestinal e doenças associadas à idade

Alterações associadas ao envelhecimento da microbiota estão ligadas a várias doenças, incluindo distúrbios neurodegenerativos como a doença de Alzheimer (DA) e a doença de Parkinson (DP) — doenças associadas à idade que afetam a longevidade. 

A disbiose, ou desequilíbrio microbiano, tem sido implicada também no “inflammaging” – uma inflamação crônica e de baixo grau que acelera o envelhecimento. Esse processo está associado a doenças como DA, DP, condições cardiovasculares e diabetes tipo 2. 

Níveis reduzidos de bactérias benéficas produtoras de SCFA (ácidos graxos de cadeia curta, produzidos no intestino pela fermentação de fibras) e o aumento da permeabilidade intestinal intensificam a inflamação, o que acelera a progressão das doenças.

Como manter uma microbiota diversa e equilibrada

Certas bactérias intestinais, como Bifidobacterium e Lactobacillus, podem atenuar o processo inflamatório relacionado à idade e contribuir para a longevidade. Tal conclusão, divulgada em um artigo publicado no periódico Exploratory Research and Hypothesis in Medicine em agosto de 2024, reforça a importância de práticas que ajudem a cultivar uma flora intestinal equilibrada como forma de melhorar e estender o tempo de vida saudável.

Segundo o estudo, três fatores ajudam a preservar a diversidade microbiana: dieta saudável, atividade física e redução de stress. Essa tríade é fundamental para manter um sistema imunológico robusto e uma resposta inflamatória controlada.

A modulação do microbioma por meio de prebióticos, probióticos e intervenções dietéticas também mostra potencial para promover um envelhecimento saudável. Cepas probióticas, como Bifidobacterium longum e Lactobacillus rhamnosus, têm sido associadas ao aumento da função imunológica e à redução da inflamação em adultos mais velhos.

Veja, abaixo, alguns alimentos que podem auxiliar na diversidade e equilíbrio da microbiota:

  • Prebióticos: fibras alimentares que servem de alimento para bactérias benéficas, promovendo o crescimento e a atividade bacteriana no intestino. São alimentos como frutas, legumes e grãos integrais capazes de manter a diversidade microbiana.
  • Probióticos: microrganismos vivos encontrados em alimentos fermentados, como iogurte e kefir. Estudos sugerem que os probióticos reduzem a inflamação, fortalecem o sistema imunológico e melhoram a digestão.

Referências:

Ira R, Adwani J, Krishnan AO, Subramanian G, Yadav S, Shukla S, et al. Understanding Aging through the Lense of Gut Microbiome. Explor Res Hypothesis Med. Published online: Aug 2, 2024. doi: 10.14218/ERHM.2024.00008.

Gut Microbiota por Health. Understanding the gut microbiota’s impact on longevity. Disponível em: https://www.gutmicrobiotaforhealth.com/understanding-the-gut-microbiotas-impact-on-longevity/. Acesso em: 15 out. 2024.

Medical News Today. How might bacteria-eating viruses and gut bacteria contribute to longevity. Disponível em: https://www.medicalnewstoday.com/articles/how-might-bacteria-eating-viruses-and-gut-bacteria-contribute-to-longevity. Acesso em: 15 out. 2024.

Mayo Clinic Press. The microbiome and its influence on healthy aging. Disponível em: https://mcpress.mayoclinic.org/healthy-aging/the-microbiome-and-its-influence-on-healthy-aging/. Acesso em: 15 out. 2024.

Autor

  • Comitê Científico Lifespan

    O Comitê Científico do Lifespan é composto por jornalistas, pesquisadores, médicos e estudiosos da longevidade humana. Nosso objetivo é analisar, interpretar e trazer ao público as principais notícias e descobertas desse ramo, com base na ciência.

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