Para compreender a complexidade dos estudos de longevidade, é necessário entender uma teoria com um nome bem diferentão. Conheçam a pleiotropia antagonista, formulada pelo cientista George Williams, em 1957. Ela tenta justamente responder à pergunta: por que envelhecemos e por que o nosso risco de doenças aumenta ao decorrer da vida?
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Eis o que ela propõe: existem genes (que são as instruções para produzir todas as proteínas do nosso corpo) que nos protegem conferindo vantagens evolutivas enquanto somos jovens. Na idade madura, entretanto, estes mesmos genes potencializam o envelhecimento. Algo ancestral e verdadeiro.
Fazendo um paralelo com o mundo dos games: imagine que somos participantes de uma corrida de Mario Kart. Princesa Peach, Bowser e Yoshi. No início da corrida, os genes pleiotrópicos são como a estrelinha mágica que nos dá invencibilidade e velocidade. Porém, conforme envelhecemos, é mais provável que estes mesmos genes nos façam escorregar em uma casca de banana. Uma bagunça.
Durante a juventude, o que o organismo mais protege é a capacidade reprodutiva, afinal, a preservação da espécie humana é o mais importante. Portanto, na juventude, tudo funciona. Só sorteamos a estrela. Não temos tantas dores e a recuperação de lesões é muito mais eficiente. Mas a partir de uma certa idade, o cenário muda.
Passando a juventude, o corpo entende que o momento da reprodução passou. A nossa estrelinha do Mario Kart terminou o seu efeito. E aí é que a história muda: esse mesmos genes, que nos protegiam na juventude para favorecer a reprodução, tornam-se os genes que favorecem a senescência celular. Já sabemos que ela é um dos principais marcadores metabólicos do envelhecimento.
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Por provocar um ambiente inflamatório ao seu redor, chamado de SASP, o acúmulo das células senescentes pode interferir de forma negativa no nosso sistema imunológico, causando o fenômeno imunosenescência.
Essa condição explica a “queda” no sistema imunológico de idosos, e o porquê de eles responderem de forma inadequada às vacinações e às infecções. Ou seja, o nosso sistema de defesa vai, devagar, degringolando.
Uma das dificuldades em encontrar o antídoto contra o envelhecimento é exatamente a pleiotropia antagonista. Que desafio é entender como modular este processo! Afinal, estes genes nos conferem muita proteção na juventude. Como fazer com que eles não façam com que escorreguemos na casca da banana conforme envelhecemos?
Estamos chegando lá em termos de ciência, com as pesquisas referentes aos senolíticos e senomórficos. Estas substâncias estão sendo estudadas para tentar modular o processo da senescência e desacelerar o envelhecimento. Rapamicina é um dos mais estudados, mas isso é assunto para um próximo texto.
Até lá!

