As mitocôndrias são organelas celulares responsáveis pela produção de energia na forma de ATP (adenosina trifosfato), por meio do processo de respiração celular. Elas transformam nutrientes no combustível que nossas células precisam para executar uma série de reações, desde as mais simples até as mais complexas. O que muitas pessoas não sabem é que problemas nas mitocôndrias estão relacionados à longevidade.
Para ilustrar melhor esse conceito e visualizar o que de fato essas organelas representam no nosso sistema, imagine as mitocôndrias como pequenas “fábricas de energia”, a exemplo das usinas elétricas, e que podem ser encontradas nas células do nosso corpo.
Além de produzir energia, as mitocôndrias também têm outras funções importantes, como ajudar a manter as células saudáveis e regular a morte celular quando necessário, como no caso de células defeituosas ou tumorais.
As mitocôndrias, no então, não são eternas. Pior: elas são muito suscetíveis a danos que podem levar a uma disfunção ou perda na capacidade de produção de energia. Esses dois fatores, como você verá a seguir, estão relacionados com o envelhecimento e desenvolvimento de doenças associadas à idade.
Vamos explicar essa conexão a partir de agora.
Mitocôndrias e longevidade: teoria do envelhecimento
A teoria mitocondrial do envelhecimento é baseada no fato de que o DNA mitocondrial (mtDNA) tem uma taxa mais alta de mutação e um reparo menos eficiente em comparação com o DNA nuclear.
O mtDNA é o material genético que fica localizado dentro das mitocôndrias, enquanto o DNA nuclear localiza-se no núcleo das células eucarióticas. É o material genético das mitocôndrias que dá instruções sobre como as organelas devem produzir energia para as demais células do organismo.

A taxa de mutação do mtDNA é até 15 vezes maior do que a do DNA nuclear. Esse acúmulo de mutações no mtDNA pode atingir um nível crítico e causar efeitos adversos, especialmente nas mitocôndrias, nas quais componentes danificados ou com funcionamento inadequado da cadeia respiratória precisam ser substituídos.
Quando as mitocôndrias se tornam disfuncionais, elas liberam espécies reativas de oxigênio (ROS) que podem danificar as células, as proteínas e o DNA, ocasionando processos inflamatórios e a diminuição da capacidade das células para se repararem.
Além disso, há uma diminuição natural da capacidade energética das mitocôndrias com o passar do tempo. Em humanos, a capacidade de produção de ATP diminui 8% por década. Da mesma forma, descobriu-se que os idosos têm uma redução de 1,5 vezes na capacidade oxidativa por volume mitocondrial e uma redução de 1,5 vezes por volume muscular.
Encontrar formas de manter as mitocôndrias funcionais e ativas, portanto, é um caminho para estimular a longevidade e prevenir não só o envelhecimento, mas uma série de doenças crônicas que estão associadas – direta ou indiretamente – à idade.
Há evidências crescentes de que a disfunção mitocondrial pode levar a alterações no metabolismo celular, incluindo o acúmulo de gordura, resistência à insulina e diminuição da capacidade de queimar calorias. Essas alterações metabólicas estão associadas a doenças como diabetes tipo 2, obesidade e doenças cardiovasculares.
Além disso, estudos mostram que mitocôndrias disfuncionais podem contribuir para o desenvolvimento de mutações somáticas em células não cancerígenas, o que pode levar à formação de tumores, bem como a perda da capacidade de programar a morte celular.
Essa apoptose inadequada, ou mesmo inexistente, pode levar ao acúmulo de células danificadas e envelhecidas no corpo, contribuindo para o desenvolvimento de doenças.
O que causa a disfunção mitocondrial?
O envelhecimento, por si só, é um importante fator de estímulo à disfunção mitocondrial. Além dele, outras causas também estão envolvidas na perda da capacidade de produção energética dessas organelas, como exposição a toxinas ambientais, estresse oxidativo, inflamação crônica, dieta pobre em nutrientes, sedentarismo e doenças genéticas mitocondriais.
A exposição a toxinas ambientais, como poluentes, metais pesados e pesticidas pode levar à disfunção mitocondrial devido a um aumento na produção de espécies reativas de oxigênio (ROS), diminuindo a capacidade de produção energética dessas organelas.
O estresse oxidativo e a inflamação crônica também são possíveis causas de falha energética nas mitocôndrias. O estresse oxidativo ocorre quando há um desequilíbrio entre a produção de ROS e a capacidade das células para neutralizá-los, o que pode levar ao dano celular e ao comprometimento das mitocôndrias. O mesmo vale para a inflamação crônica.

No ponto da alimentação e da atividade física, vale destacar outras funcionalidades das mitocôndrias. Em primeiro lugar, essas organelas requerem uma variedade de nutrientes, incluindo vitaminas, minerais e aminoácidos, para funcionar adequadamente. Sem substrato, portanto, não há como garantir uma função mitocondrial adequada.
Já o exercício físico é importante porque ele consegue aumentar a produção de novas mitocôndrias e estimular a mitofagia, que é a reciclagem de mitocôndrias danificadas para a produção de novas organelas. Por isso, o extremo oposto, o sedentarismo, não ajuda em nada na função mitocondrial.
Por fim, existem também algumas doenças genéticas mitocondriais que podem levar à disfunção. Essas doenças são causadas por mutações no DNA mitocondrial ou no DNA nuclear que afetam a função mitocondrial. Os sintomas dessas doenças variam amplamente e podem incluir disfunção mitocondrial grave em diferentes órgãos do corpo.
Como cuidar da saúde das mitocôndrias
Alguns hábitos do dia a dia podem, de certa forma, estimular a produção de energia pelas mitocôndrias e até mesmo a formação de novas organelas, estimulando a longevidade.
Alimentação e nutrição
Uma dieta balanceada, rica em alguns nutrientes específicos, pode ajudar a manter o bom funcionamento das mitocôndrias. Os nutrientes que, segundo um estudo da Yunnan University, na China, ajudam a proteger as mitocôndrias são: ômega 3, antioxidantes (como vitamina C e zinco), vitaminas do complexo B (como B12 e metilfolato) e magnésio.
Além disso, estudos mostram que a restrição calórica moderada pode ajudar a melhorar a função mitocondrial e aumentar a longevidade em animais. O conselho de alguns estudiosos nessa área seria: comer um pouco menos e com menos frequência, com a prática do jejum intermitente.
Exercício físico
O exercício físico regular pode ajudar a aumentar a produção de mitocôndrias e melhorar a função mitocondrial. Estudos mostram que o exercício agudo (de força ou aeróbico) pode aumentar a produção de mitocôndrias e melhorar a função mitocondrial em pessoas saudáveis e em pacientes com doenças metabólicas. Além disso, o treino de força (musculação) pode aumentar a produção de ATP pelas mitocôndrias.
Redução do estresse oxidativo
Uma vez que as mitocôndrias podem se tornar alvo do estresse oxidativo, é preciso investir em maneiras de neutralizar esses danos. Alguns antioxidantes, como a vitamina C e a vitamina E, podem ajudar a reduzir o estresse oxidativo e, assim, proteger as mitocôndrias e sua produção energética.
Suplementação
Existem alguns suplementos que podem ajudar a preservar a função mitocondrial para além do avanço dos anos. Uma classe que vale a pena mencionar é a de precursores de NAD. O NAD (nicotinamida adenina dinucleotídeo) é essencial para o bom funcionamento das mitocôndrias, como uma espécie de “combustível” para nossas usinas elétricas. Com o passar dos anos, porém, a produção de NAD cai no organismo, reforçando a importância de uma suplementação individualizada.
Referências:
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Pizzorno, Joseph. “Mitochondria-Fundamental to Life and Health.” Integrative medicine (Encinitas, Calif.) vol. 13,2 (2014): 8-15.


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