Uma pesquisa recente publicada por instituições de referência na Escandinávia aponta que a idade biológica, ou seja, o real estado de envelhecimento do corpo, pode oferecer uma avaliação mais precisa do risco de doenças cardiovasculares do que as ferramentas clínicas tradicionais, que consideram apenas a idade cronológica e fatores de estilo de vida.
Leia mais: Qual a diferença entre idade biológica e cronológica?
O estudo envolveu mais de 14 mil participantes de três coortes populacionais na Finlândia e Suécia, com resultados consistentes entre diferentes faixas etárias.
O trabalho foi conduzido por cientistas das Universidades de Jyväskylä, Tampere e Helsinque, com apoio do Instituto Finlandês de Saúde e Bem-Estar (THL) e do renomado Karolinska Institutet, na Suécia.
O que é idade biológica e como ela é medida?
Enquanto a idade cronológica é simplesmente o número de anos vividos, a idade biológica reflete o nível real de deterioração funcional do organismo. Ela pode ser acelerada ou desacelerada por fatores como alimentação, sono, estresse, atividade física, poluição ambiental e genética.
Se quiser entender mais sobre o assunto, acesse esse conteúdo aprofundado que fizemos sobre idade biológica e como calculá-la.
Nos últimos anos, o avanço da biotecnologia permitiu o desenvolvimento dos chamados “relógios biológicos” (age clocks) — algoritmos e biomarcadores que estimam a idade biológica com base em dados moleculares, como metilação do DNA, expressão gênica, inflamação sistêmica e comprimento dos telômeros. Entre os age clocks mais estudados estão o Horvath clock, o GrimAge e o DunedinPACE.
No estudo escandinavo, os pesquisadores utilizaram dois marcadores complementares para estimar a idade biológica:
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Índice de fragilidade (frailty index): um escore baseado no acúmulo de déficits de saúde ao longo do tempo, como dificuldades de locomoção, doenças crônicas, quedas de energia, entre outros;
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Comprimento dos telômeros: regiões protetoras do DNA que encurtam à medida que as células envelhecem.
Esses dois marcadores foram comparados com os sistemas tradicionais de avaliação de risco cardiovascular, como o Framingham Risk Score e os algoritmos SCORE2 e SCORE2-OP, amplamente usados em diretrizes médicas europeias.
Frailty index: forte preditor de risco cardiovascular
De acordo com a pesquisadora Anna Tirkkonen, da Universidade de Jyväskylä, o índice de fragilidade se mostrou um preditor de destaque para o risco de doenças cardiovasculares em todas as faixas etárias avaliadas — tanto em idosos com mais de 70 anos quanto em adultos mais jovens.
“O índice de fragilidade refletiu com alta precisão a probabilidade de desenvolver doença cardiovascular nos próximos dez anos”, afirma Tirkkonen. A pesquisadora Laura Kananen, do Karolinska Institutet, complementa que, embora o comprimento dos telômeros também seja um biomarcador importante, sua associação com risco cardiovascular foi menos evidente neste estudo, reforçando que indicadores funcionais e clínicos muitas vezes oferecem maior sensibilidade para prever eventos cardiovasculares.
O que acelera a idade biológica e aumenta o risco de doenças cardiovasculares?
Diversos fatores podem contribuir para o envelhecimento biológico acelerado, aumentando a vulnerabilidade a doenças crônicas como infarto, AVC, hipertensão e insuficiência cardíaca:
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Alimentação ultraprocessada e inflamatória
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Sedentarismo e baixa aptidão cardiorrespiratória
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Tabagismo e consumo excessivo de álcool
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Estresse crônico e distúrbios do sono
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Exposição constante a poluentes ambientais
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Baixo suporte social e saúde mental fragilizada
Esses fatores aumentam a carga inflamatória do organismo (inflammaging), comprometem a função endotelial, aceleram o encurtamento dos telômeros e prejudicam a renovação celular, afetando diretamente o sistema cardiovascular.
Calcular a idade biológica pode salvar vidas
Os autores do estudo defendem que os indicadores de idade biológica, especialmente o índice de fragilidade, sejam incorporados aos modelos de avaliação de risco cardiovascular em larga escala. A boa notícia é que o frailty index pode ser calculado a partir de questionários simples e rápidos, viabilizando sua aplicação em atendimentos clínicos e em políticas de saúde pública.
“A idade biológica captura, de forma mais integrada, o acúmulo de danos funcionais no organismo. Ela é um reflexo direto do impacto das nossas escolhas de vida no corpo ao longo do tempo”, conclui Kananen.
Conforme nos aprofundamos nos estudos a respeito do envelhecimento, o uso de biomarcadores dinâmicos e personalizados pode revolucionar a forma como prevenimos e tratamos doenças crônicas, colocando a biologia — e não apenas o calendário — no centro do cuidado com a saúde.
Referência do estudo:
Anna Tirkkonen, Jonathan K L Mak, Johan G Eriksson, Pauliina Halonen, Juulia Jylhävä, Sara Hägg, Linda Enroth, Jani Raitanen, Iiris Hovatta, Tuija Jääskeläinen, Seppo Koskinen, Markus J Haapanen, Mikaela B von Bonsdorff, Laura Kananen. Predicting cardiovascular morbidity and mortality with SCORE2 (OP) and Framingham risk estimates in combination with indicators of biological ageing. Age and Ageing, 2025; 54 (4) DOI: 10.1093/ageing/afaf075

