À medida que a população mundial envelhece, com a expectativa de triplicar o número de pessoas com mais de 80 anos entre 2020 e 2050, distúrbios crônicos classificados como doenças relacionadas à idade, como diabetes tipo 2 (T2D) e doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), estão se tornando mais comuns. E uma possível resposta para lidar com os distúrbios metabólicos está justamente nas células senescentes.
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Surpreendentemente, algumas dessas doenças crônicas compartilham características semelhantes ao envelhecimento prematuro, sugerindo a existência de um conjunto de mecanismos moleculares e celulares em comum. Esse mecanismo, que tem recebido grande atenção nos últimos anos, é a “senescência celular” (SC).
O que é a senescência celular?
A senescência celular é um estado no qual as células deixam de se dividir e passam por mudanças distintas em sua funcionalidade e características. Elas se tornam maiores, achatadas e irregulares em sua forma, exibindo expressão elevada de proteínas específicas, como p53, p21, p16 e outras. Seu DNA mostra sinais de danos, e apresenta atividade aumentada de um marcador conhecido como β-galactosidase associada à senescência (SA-β-gal).
Curiosamente, a SC não é meramente um estado estático. As células senescentes secretam ativamente uma série de fatores coletivamente denominados fenótipo secretor associado à senescência (SASP, na sigla em inglês).
O SASP inclui uma variedade de mediadores envolvidos em inflamação e danos teciduais, como citocinas, quimiocinas, fatores de crescimento e microRNAs. Embora isso possa parecer inicialmente contraditório, esse comportamento secretor é uma faca de dois gumes. Ele pode tanto reforçar o fenótipo senescente nelas mesmas quanto disseminar a senescência para células normais vizinhas e distantes, contribuindo para o envelhecimento de todo o organismo.
Papel das células senescentes nos distúrbios metabólicos
Inicialmente, a senescência celular era considerada um mecanismo protetor contra o câncer, impedindo a proliferação de células danificadas ou potencialmente prejudiciais.
No entanto, quando o número de células senescentes excede a capacidade do sistema imunológico de removê-las, elas começam a se acumular nos tecidos. Essa acumulação pode interferir nos processos fisiológicos normais e tornar os tecidos mais vulneráveis a estressores adicionais, impulsionando a progressão de doenças relacionadas à idade e distúrbios metabólicos.
Estudos recentes forneceram insights interessantes sobre o papel da SC nos distúrbios metabólicos. A SC está significativamente aumentada na obesidade em adultos, T2D e DHGNA, independentemente do envelhecimento.
Tecidos senescentes são caracterizados por células disfuncionais e inflamação aumentada. Além disso, condições de hiperinsulinemia e resistência à insulina, características comuns dos distúrbios metabólicos, podem promover a SC, estabelecendo um ciclo vicioso que agrava esses distúrbios.
Novas terapias focadas na senescência celular
Surpreendentemente, intervenções direcionadas à SC proporcionam benefícios terapêuticos em modelos pré-clínicos desses distúrbios metabólicos, lançando luz sobre novas estratégias promissoras para o seu tratamento.
Porém, os desencadeadores da SC são diversos e variam de acordo com o contexto, incluindo desde danos no DNA, alterações epigenéticas, disfunção mitocondrial até mediadores inflamatórios e outros sinais de perigo.
Portanto, é fundamental entender que, embora a senescência celular seja um ator importante, ela não é a única contribuinte para o envelhecimento ou distúrbios metabólicos.
Em conclusão, o estudo da senescência celular proporciona uma nova perspectiva para entender, prevenir e tratar os distúrbios metabólicos. À medida que continuamos a desvendar os mecanismos da senescência celular e sua interação com diversas vias metabólicas, nos aproximamos de um futuro em que as doenças relacionadas à idade e distúrbios metabólicos podem ser gerenciados ou até mesmo prevenidos de forma eficaz.
Referência:
Spinelli, Rosa et al. “Increased cell senescence in human metabolic disorders.” The Journal of clinical investigation vol. 133,12 e169922. 15 Jun. 2023, doi:10.1172/JCI169922

