Problemas de memória que interferem nas tarefas do dia a dia, dificuldade na fala e no raciocínio, desorientação no tempo e no espaço, alterações de humor e comportamento. Esses são alguns dos sinais clássicos do Alzheimer, o tipo mais comum de demência, responsável por cerca de 70% dos casos em todo o mundo. A condição afeta principalmente pessoas acima dos 65 anos e já atinge aproximadamente 50 milhões de indivíduos globalmente — um número que tende a crescer à medida que a população envelhece.
No Brasil, estima-se que 1,2 milhão de pessoas vivam com a doença, com cerca de 100 mil novos diagnósticos por ano. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento multidisciplinar e gratuito, incluindo medicamentos que ajudam a retardar a progressão dos sintomas. Ainda assim, o Alzheimer segue como um dos maiores desafios de saúde pública da atualidade — e cada vez mais pesquisadores defendem que a prevenção pode ser o fator decisivo para mudar esse cenário.
Em um comentário publicado no The American Journal of Medicine, cientistas da Florida Atlantic University destacam que perder a função cognitiva não é um destino inevitável do envelhecimento. Segundo eles, intervenções baseadas em estilo de vida podem reduzir de forma significativa o risco de declínio cognitivo, com efeitos comparáveis aos observados na prevenção de doenças cardiovasculares e metabólicas.
A equipe da Charles E. Schmidt College of Medicine faz um chamado à ação para que profissionais de saúde, gestores públicos e formuladores de políticas adotem uma abordagem coordenada e preventiva.
O objetivo: preservar a longevidade cerebral por meio de hábitos que fortalecem a mente, o corpo e o vínculo social.
A virada de chave: do coração ao cérebro
“Desde os anos 2000, as mortes por doenças cardiovasculares caíram, enquanto as mortes por Alzheimer aumentaram mais de 140%”, observa Charles H. Hennekens, professor e coautor do artigo.
A diferença, segundo ele, está na falta de estratégias preventivas igualmente robustas para o cérebro. “Sabemos que até 45% do risco de demência pode estar associado a fatores modificáveis — e isso muda tudo.”
Esses fatores incluem inatividade física, dieta pobre, obesidade, hipertensão, diabetes, depressão, uso excessivo de álcool e isolamento social ou intelectual. São os mesmos elementos que, há décadas, estão no centro da prevenção cardiovascular — e agora despontam como alvos para a longevidade cerebral.
Os estudos que apoiam a prevenção cognitiva
Os pesquisadores destacam os resultados de dois grandes ensaios clínicos multidomínio — FINGER (na Finlândia) e POINTER (nos Estados Unidos) — que testaram se mudanças intensivas no estilo de vida poderiam melhorar a cognição em idosos com alto risco de declínio.
Os achados são notáveis: em ambos os estudos, os participantes que adotaram intervenções coordenadas de dieta, atividade física, estimulação cognitiva e engajamento social apresentaram melhoras estatisticamente e clinicamente significativas em funções como memória, atenção e tomada de decisão.
O POINTER trial, o mais recente, combinou dieta mediterrânea e DASH (voltada à redução da hipertensão), exercícios regulares e suporte de equipe multiprofissional — mostrando que o cérebro responde positivamente a um estilo de vida ativo e integrado.
O mecanismo da longevidade cerebral
Os benefícios observados não são apenas comportamentais. O estudo também descreve os mecanismos biológicos por trás da neuroproteção, como:
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Aumento da produção de BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), que estimula o crescimento do hipocampo e a plasticidade neuronal.
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Melhora no fluxo sanguíneo cerebral e na sensibilidade à insulina.
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Redução da inflamação e do estresse oxidativo.
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Preservação da integridade da substância branca, especialmente entre ex-fumantes e praticantes de atividade física.
Esses efeitos compõem o que os cientistas chamam de “geroproteção cerebral” — um campo emergente que conecta a biologia do envelhecimento com estratégias de estilo de vida capazes de manter o cérebro jovem por mais tempo.
“Mais pesquisas serão bem-vindas, mas a totalidade das evidências já aponta um caminho nítido”, conclui Hennekens.
Investir em estratégias de estilo de vida — e não apenas em medicamentos caros e de eficácia limitada — é hoje uma das ações mais poderosas para proteger o cérebro e reduzir o peso global do Alzheimer.
Como reforçam os autores, envelhecer com um cérebro saudável é possível — e depende, em grande parte, de escolhas diárias.
Referência:
John Dunn, Parvathi Perumareddi, Charles H. Hennekens. Prospects for Clinicians to Reduce Cognitive Decline in Elderly Patients. The American Journal of Medicine, 2025; DOI: 10.1016/j.amjmed.2025.08.042




